Tragédias de grande repercussão nas estradas do Estado ganharam contornos ainda mais dramáticos, com a revelação de que desastres envolvendo carretas não foram meros acidentes. Mais de dois mil deles podem ter sido causados por veículos com eixos modificados de forma fraudulenta. No mais grave deles, em que a adulteração foi confirmada, o saldo da batida na BR 101, em Guarapari, foi de 23 mortos. Na época, a comprovação de que a carreta estava com 11 toneladas de excesso de peso já mostrava que algo de muito errado circula pelas rodovias capixabas, a ponto de serem definidas como uma “roleta-russa” por um inspetor rodoviário.
Só em 2017 e em 2018 foram 201 mortes. O caminho para frear as constantes fatalidades é justamente o adotado agora pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Ministério Público do Estado: fiscalização. A operação de ontem desbaratou uma quadrilha acusada de falsificar documentos e adulterar eixos, que contava com o apoio de funcionários do Detran de Minas Gerais e Bahia. No Espírito Santo, foram identificadas quatro oficinas responsáveis pelas fraudes e 151 veículos adulterados. Outros 428 serão analisados em um desdobramento da operação, o que é mais que bem-vindo. Investigações, controle e punição são uma reivindicação dos capixabas, que em suas viagens pelas vias do Estado levam o medo na bagagem.
O transporte de rochas é um dos mais perigosos. Os frequentes flagrantes de irregularidade sempre sugeriram a certeza de impunidade, o desdém pela legislação. Vídeo divulgado em março deste ano pelo Gazeta Online mostrou
, alguns com as placas viradas, enquanto um agente tentava, em vão, pará-los para a pesagem. Mas os problemas não são de hoje. Em 2009, por exemplo, uma frentista morreu esmagada por uma rocha em um acidente na BR 101, em Ibiraçu. A carreta que transportava a pedra já havia sido autuada sete vezes por excesso de peso.
Cargas além do permitido, desvios de pesagem, jornadas exaustivas dos motoristas, más condições dos veículos e eixos adulterados não são meras infrações, são condutas criminosas, que danificam estradas, causam prejuízos econômicos e provocam dezenas de mortes. Essa clandestinidade é incondizente com a importância do setor de rochas, que movimenta R$ 1,3 bilhão por ano no país, quase R$ 1 bilhão apenas no Espírito Santo, onde é responsável por mais de 130 mil empregos. Desenvolvimento conquistado a qualquer preço não é desenvolvimento. Empresas, sindicatos e poder público devem coibir qualquer fraude e agir para que o transporte de rochas não seja uma pedra no meio do caminho para a segurança nas estradas.