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Copa do Mundo

Copa: assédio na Rússia é repetição de machismo brasileiro

Sei que não são todos que se indignaram com vídeo de brasileiros, mas espero que esse episódio sirva de lição a todos nós sobre os valores da nossa sociedade

Publicado em 25 de Junho de 2018 às 15:06

Públicado em 

25 jun 2018 às 15:06

Colunista

Brunela Vieira de Vincenzi*
É época de Copa do Mundo e nós adoramos futebol: de fato, homens e mulheres acabam parando o que estão fazendo para dar uma olhadinha nos jogos, principalmente nos jogos da Seleção Brasileira nesses dias. Mas Copa do Mundo - e carnaval também! - não é autorização para fazer o que quiser; regras morais e jurídicas de respeito mútuo continuam em vigor.
Na semana que passou, viralizaram no Brasil alguns vídeos de torcedores brasileiros na Rússia agindo de forma a coagir uma mulher russa a falar em português palavras obscenas e depreciativas, bem como a falar que queria fazer sexo com eles. Ora, ora, agora sim, passamos do limite ético, moral e quero crer jurídico, também, mesmo na Rússia.
No meio do debate sobre o vídeo na Rússia, chegaram a mim comentários do tipo: “mas na Rússia isso é normal, um país que não aceita relações homoafetivas, lá há também violência contra mulheres“. Opa, opa! Estamos falando de, no mínimo, três coisas diferentes aqui. De fato, a Rússia é extremamente conservadora em relação à aceitação dos relacionamentos homoafetivos, há até mesmo uma lei que proíbe demonstrações de amor entre pessoas do mesmo gênero em público. Todavia, não se pode concluir disso que na Rússia a violência contra a mulher é corriqueira, e que as mulheres na Rússia seriam tratadas com o mesmo desrespeito demonstrados pelos torcedores brasileiros nos vídeos que circularam na semana passada por aqui.
Gostaria de fazer uma ressalva, fruto de uma observação pessoal que pude fazer quando estive na Rússia. Por alguns anos, costumava passar uma semana por mês em Moscou em razão do trabalho e conheci, durante esses períodos que passava na capital russa, muitas mulheres russas e estrangeiras que vivam por lá. Não havia relatos de assédio nas ruas da cidade, não havia fiu-fiu quando uma mulher passava, e mais, não havia homem pulando em volta delas gritando b***** rosinha. Pelo contrário, me chamava a atenção andar pelas ruas e ver muitos - mas muitos mesmo! - homens carregando buquês de flores, até que um dia perguntei a uma amiga russa que me disse que os homens russos sempre levavam flores para os encontros, devo confessar que me deu até uma pontadinha de inveja, afinal, romantismo sincero pode ser justamente o oposto de assédio.
Bom, superada a ideia de que os brasileiros estavam somente repetindo a cultura machista russa, o que podemos dizer desta prática então? Parece-me mais acertado, a partir da análise da nossa sociedade patriarcal e homofóbica, com altos índices de feminicídio em especial de mulheres negras, que se trata da repetição no exterior de atos praticados aqui, com o agravante de que estando em país estrangeiro, desconhecendo as leis de lá, os assediadores achavam-se eximidos de cumprir qualquer regra moral ou jurídica que os impedisse de praticar tais atos.
Mas resta ainda uma pergunta, porque viralizar o vídeo na internet? Essa é uma questão difícil de responder, juridicamente o vídeo valeria como prova contra eles mesmos, mas a certeza da impunidade, tanto aqui quanto lá, pode ter-lhes dado a segurança de divulgar o vídeo.
O que mais me anima depois de tudo, é a comoção causada na população brasileira envergonhada pelo vídeo dos brasileiros na Rússia. Sei que não são todos que se indignaram e tenho certeza que muitos no seu íntimo acharam bacana o assédio, sem entender a gravidade da piada, como de tantas outras piadas sem graça que nós mulheres temos que escutar no nosso dia a dia aqui no Brasil.
Enfim, espero que esse episódio sirva de lição a todos nós, sobre os valores da nossa sociedade e a sociedade que gostaríamos de construir para o futuro.
* A autora é professora de Direito da Ufes e presidente da Comissão Permanente de Direitos Humanos da mesma instituição

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