A discussão sobre o futuro da escala 6x1 tem mobilizado o setor produtivo brasileiro. No Espírito Santo, onde comércio e serviços concentram a maior parte da atividade econômica e do emprego formal, empresários avaliam que o fim da escala 6x1 pode elevar custos operacionais, assim como impactar os preços de produtos e serviços.
Além disso, acreditam que a mudança irá exigir adaptações significativas para manter a operação em funcionamento, principalmente entre as empresas que utilizam escala 6x1 e operam aos finais de semana.
Entre os entrevistados na pesquisa do Connect Fecomércio-ES, 64,1% dos respondentes afirmam que a proposta é um fator de pressão sobre suas operações.
"O debate envolve muito mais do que a carga horária. Ele passa pela busca de soluções que conciliem qualidade de vida para os trabalhadores e viabilidade operacional para as empresas. No varejo, especialmente em atividades que funcionam aos fins de semana ou dependem de atendimento presencial contínuo, a discussão envolve a capacidade de organizar equipes, ajustar escalas, preservar a qualidade do atendimento e administrar custos operacionais", explica André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES.
Um ponto de atenção apontado pela pesquisa é o aumento dos custos operacionais. Entre os entrevistados, 60,3% esperam algum crescimento das despesas caso a mudança seja implementada. Desse total, 33% acreditam que os custos podem aumentar mais de 10%, enquanto 21,5% estimam elevação entre 5% e 10%. Além disso, 22% afirmam não esperar impactos financeiros e 2,4% acreditam em redução de custos.
“Os resultados mostram que a principal preocupação empresarial está relacionada ao impacto financeiro da medida. Dependendo do setor, a empresa pode precisar reorganizar suas operações e estrutura para manter o mesmo nível de atendimento”, afirma André Spalenza.
O estudo mostra que essa preocupação é maior entre empresas que utilizam atualmente a escala 6x1. Nesse grupo, 68,8% estimam aumento de custos. Entre as empresas que não utilizam esse modelo, o percentual cai para 43,7%.
A percepção também se intensifica entre negócios que funcionam aos finais de semana. Entre eles, 68,8% projetam aumento dos custos, enquanto entre empresas que não operam aos sábados ou domingos esse percentual é de 36,4%.
A pesquisa mostra que muitas empresas já avaliam medidas para absorver eventuais impactos financeiros. Entre as alternativas citadas, o aumento de preços aparece como a principal estratégia, mencionada por 44,5% dos empresários. Na sequência, surge o ajuste das escalas internas (44%), investimentos em automação (24,9%), redução do horário de funcionamento (23,9%) e contratação de novos funcionários (23%). Entre as empresas que estimam aumento dos custos de operação, 63,5% afirmam que o reajuste de preços seria uma das medidas adotadas.
“O dado chama atenção porque mostra que parte relevante das empresas considera repassar custos ao consumidor para preservar a sustentabilidade financeira da operação. Isso pode gerar efeitos indiretos sobre preços, especialmente em atividades intensivas em mão de obra e atendimento presencial”, observa Spalenza.
A pesquisa ainda abordou o impacto da medida na geração de empregos. A maioria das empresas (57,9%) pretende manter o quadro atual de funcionários. Por outro lado, 22,5% avaliam a possibilidade de contratar mais trabalhadores para garantir o funcionamento das operações, enquanto 19,6% consideram reduzir equipes.
Relevância do setor no ES
No Espírito Santo, o segmento de comércio e serviços responde por aproximadamente 66% do Produto Interno Bruto (PIB) Estadual. Além disso, os serviços concentram 46% dos trabalhadores formais e o comércio reúne 25,8% dos empregos com carteira assinada. Juntos, os dois setores representam mais de 70% dos vínculos formais existentes no Estado.
Atualmente, cerca de 644,6 mil trabalhadores formais atuam entre 41 e 44 horas semanais, o equivalente a 57,9% dos empregos formais do Espírito Santo.
“A Federação entende que mudanças dessa magnitude exigem amplo diálogo. Os dados da pesquisa do Connect Fecomércio-ES demonstram a importância de aprofundar o debate para que sejam construídos mecanismos equilibrados, capazes de preservar a competitividade das empresas, a sustentabilidade dos negócios e, ao mesmo tempo, promover qualidade de vida e bem-estar aos trabalhadores do comércio”, diz Wagner Correa, Superintendente da Fecomércio-ES.
Impactos nas atividades de atendimento contínuo
A pesquisa identificou que os setores mais dependentes de atendimento presencial e funcionamento contínuo são os que demonstram maior preocupação com a mudança. No comércio varejista, 49,5% das empresas afirmam que poderiam aumentar preços, 42,1% pretendem ajustar escalas internas e 28% avaliam reduzir horários de funcionamento.
Nos segmentos de alimentação, que incluem bares, restaurantes e serviços de delivery, os percentuais são ainda mais elevados. Dois terços dos entrevistados (66,7%) indicaram aumento de preços e ajuste de escalas como principais medidas de adaptação. Já no setor de hospedagem, o principal movimento seria a reorganização das escalas, apontada por 77,8% das empresas, seguida pela contratação de novos funcionários (55,6%).
“Os setores que dependem de atendimento contínuo apresentam maior sensibilidade porque precisam manter operações ativas justamente nos períodos de maior demanda, como noites, finais de semana e feriados. Por isso, qualquer alteração na jornada tende a exigir adaptações mais complexas”, explica Spalenza.
Perfil dos entrevistados
O levantamento mostra que a escala 6x1 continua sendo o modelo mais utilizado entre os negócios participantes da pesquisa, presente em 65,6% das empresas. A escala 5x2 aparece em segundo lugar, com 28,2%.
Ademais, a amostra é formada majoritariamente por empresas do comércio varejista, que representam 51,2% dos respondentes. Outros serviços somam 21,5%, comércio atacadista 7,2%, alimentação 6,7% e hospedagem 4,3%.
Outro aspecto relevante é o porte dos negócios entrevistados. Somando microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e pequenas empresas, esse grupo representa 74,6% da amostra.
Connect
Com uma visão voltada ao desenvolvimento dos negócios no Espírito Santo, a Fecomércio-ES e a faculdade FAESA, em parceria com o Senac, a Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), a Fapes e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti-ES), lançaram o Connect Fecomércio-ES, uma iniciativa pioneira entre as federações do comércio do país.
O Connect consolidou-se como uma plataforma estratégica de inteligência de dados, reunindo informações relevantes para apoiar a tomada de decisões de empresários dos setores de comércio, serviços e turismo, além de autoridades públicas, pesquisadores, acadêmicos e da sociedade em geral.
Por meio de pesquisas, indicadores e análises de mercado, o projeto tem contribuído para ampliar a compreensão dos cenários econômicos e fortalecer a competitividade dos negócios capixabas.