Hoje, a imagem externa do Brasil não pode ser considerada boa. O tribunal de Porto Alegre ofereceu uma oportunidade para se começar a mudar essa percepção negativa.
A repercussão sem dúvida será grande e, no curto e médio prazos, as interpretações tenderão a refletir a polarização que grassa na sociedade brasileira e no mundo. Alguns políticos, historiadores e cientistas sociais verão na sentença a reação dialética das elites contra a ascensão da classe trabalhadora; outros, a derrocada inexorável da experiência criptocomunista no Brasil. Os primeiros encontrarão apoio em comentaristas preguiçosos, que repetirão no The Guardian e no Le Monde Diplomatique diatribes prêt-à-porter sobre mais um “golpe da direita” no Brasil. Outros se apressarão a trombetear no The Wall Street Journal e The Economist que os obstáculos estatizantes foram enfim extirpados e que agora o Brasil vai bombar.
A celeuma me parece inevitável e é de se prever que o governo brasileiro, e o Itamaraty em particular, terá de trabalhar duro para transmitir às autoridades dos países amigos uma leitura mais serena e com perspectiva de longo prazo. O recado terá de ser que as instituições responderam com maturidade aos desafios, a Constituição foi respeitada, a economia demonstrou robustez e a classe política saberá exercer a liderança que dela se espera neste momento histórico que o país atravessa.
Na prática, teremos de esperar para saber qual versão prevalecerá. A boa notícia é que há motivos concretos para que possamos restabelecer a imagem internacional positiva que já tivemos. O julgamento de ontem poderá vir a ser interpretado, dentro de algum tempo, como a ponte que faltava para as reformas políticas e econômicas necessárias que o Brasil não pode procrastinar. A notícia não tão boa é que a ponte passa pelas eleições de outubro, que são um desafio tão grande, ou maior, do que aquele que o Tribunal Regional Federal da Quarta Região superou com galhardia.
*O autor é embaixador aposentado