Uma coisa é fato, os juros do cartão de crédito no Brasil são astronômicos, de fazer inveja aos bancos e financeiras do mundo todo, até mesmo aos agiotas. Na última pesquisa do ano de 2016 a taxa de juros média do rotativo do cartão de crédito fechou em 484% ao ano. Se pensarmos que a taxa de juros estava próxima dos 14%, o spread cobrado pelo banco é de 470% ao ano! Isso dá uma taxa de juros média de mais de 15% ao mês. Para entender a mudanças das regras e seu efeito temos que entender as razões de um spread tão grande.
A taxa de juros cobrada pelos bancos é composta pela taxa básica, que está em 13%, mais uma margem de lucro mais uma compensação pelo risco. A margem de lucro é tão maior quanto menor for a competição entre os bancos, e a compensação pelo risco é tão maior quanto maior for a chance do calote.
Economia e Você - Bruno Funchal - 03-02-17
Hoje, a modalidade de crédito que tem o menor risco de todos é o credito consignado pois garante a instituição financeira descontar, compulsoriamente, o valor da prestação direto da conta do devedor. Esse mecanismo reduz muito o risco. Isso explica a taxa ser a mais baixa entre os créditos para consumidor, em torno de 30%. Isso quer dizer que dos 30%, 13% é a taxa básica e 17% é, digamos, a margem dos bancos. Pra reduzir essa taxa só com mais garantias, como a do uso do FGTS ou mais competição bancária.
O crédito pessoal (CDC) já é uma modalidade com mais risco, visto pois não tem a garantia do desconto em folha. Essa modalidade está com uma taxa de juros média de 139% ao ano. A diferença de mais de 100% entre o crédito consignado e o CDC é justamente para compensar quantidade de inadimplentes que tomam esse tipo de empréstimo e acabam não pagando.
Finalmente, o rotativo do cartão de crédito. Esse tipo de crédito é o que possui maior risco associado e hoje com uma taxa de 484% ao ano tem um custo 454 pontos percentuais maior que o crédito consignado. Isso significa que dos 15% ao mês pago na taxa de juros desse empréstimo, 13% é cobrado para compensar o risco que o banco corre em emprestar nessa modalidade, isto é, o próprio banco sabe que dificilmente vai receber e por isso joga os juros lá pra cima, e quem acaba tomando esse empréstimo são os que estão em maior desespero, e pegam como a última alternativa. Essa é uma modalidade para uso emergencial, e acaba sendo uma armadilha pois a dívida vira uma bola de neve por conta dos juros altos.
A proposta do governo é atacar essa modalidade, e revendo suas regras de uso principalmente dessa modalidade de crédito, o rotativo do cartão. Note que, diferente da proposta apresentada ano passado na comissão de assuntos econômicos do senado, que era impor uma taxa de juros 2 vezes a da SELIC, proposta que não funciona como comentei ano passado, a proposta apresentada é sustentável e pode reduzir bastante as taxas de juros.
De acordo com a proposta apresentada pelo governo, o rotativo só poderá ser usado até o vencimento da fatura seguinte, ou seja, só pode ser usado por um mês, e não indefinidamente o que culminava com a bola de neve impagável. Se na data do vencimento o cliente não tiver feito o pagamento total do valor da fatura, o restante terá que ser parcelado ou quitado. Antes, só era cobrado o pagamento mínimo e o restante do saldo devedor era financiado quantas vezes fosse preciso (até o limite) com os juros do rotativo, que são astronômicos.
Então, sempre que o consumidor entrar no crédito rotativo, depois de 30 dias o banco terá de oferecer ao cliente um parcelamento do saldo devedor, e ele sai do rotativo. O banco pode oferecer outras linhas de financiamento mais baratas para o pagamento do saldo devedor, como o CDC. O consumidor também fica com a opção de fazer o pagamento à vista depois do prazo. Caso ele não escolha nenhuma das duas alternativas, ficará inadimplente.
A tendência é que as taxas de juros do cartão caiam mais que a metade, ficando apenas um pouco acima das taxas de juros do parcelamento do cartão que é de 150% ao ano, o que representaria uma redução de mais de 250 pontos percentuais nas taxas de juros do cartão rotativo além da redução do tempo que as pessoas fiquem usando o rotativo do cartão.
Para vermos a diferença para o consumidor, suponha que o cliente tivesse que pagar uma fatura de 1000 reais. Se o cliente tem apenas 150 reais, a dívida pode se tornar impagável. Só no primeiro mês o saldo pularia para R$ 948,72 e no final do sexto mês a dívida seria de R$1708,90, 100% acima da dívida inicial de R$ 850.
Pelas regras novas, se o cliente fizer uma fatura de R$ 1 mil, mas pagar apenas R$ 150, ele entra no rotativo apenas por um mês. Ou seja, depois de 30 dias, a conta dele sobe de R$ 850,00 para R$ 948,72. No entanto, o banco terá de contatar o consumidor e perguntar se ele quer parcelar ou pagar à vista, e a bola de neve para de crescer. Como a nova modalidade de crédito é bem mais barata, o custo dessa dívida cai, além de direcionar para um planejamento que equacione a dívida. Os bancos ficam obrigados a operar por essas novas regras a partir de 03 abril.
Fonte: Bruno Funchal/ Doutor em Economia