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Fernando Madeira
Chuva no ES

Combinação trágica: erros e força da natureza causaram desastres na Região Sul

Especialistas apontam soluções para evitar que municípios capixabas voltem a sofrer tamanha destruição com enxurradas

Publicado em 25 de Janeiro de 2020 às 05:00

Publicado em

25 jan 2020 às 05:00
Casa destruída mostra o tamanho do estrago causado pela chuva na Região Sul do Estado  Crédito: Fernando Madeira
Às 22h27 de sexta-feira, 17 de janeiro, a chuva começa a alagar ruas do município de Iconha. Três minutos depois, a água já está na metade das rodas dos carros. Às 22h40, invade lojas e casas. Cerca de 40 minutos depois, as ruas da cidade no Sul do Espírito Santo viram verdadeiros rios. A correnteza tem tal força que arrasta tudo o que encontra pela frente. Tudo flagrado por câmeras de monitoramento e vídeos feitos por moradores que apenas começavam a viver um drama.
Na manhã seguinte, o cenário da devastação: imóveis destruídos, pontes caídas, pessoas que perderam tudo, alguns, inclusive, a própria vida. Até a noite de quinta-feira, eram sete mortos. Além de Iconha, os municípios de Vargem AltaAlfredo Chaves e Rio Novo do Sul foram duramente afetados pela enchente do último final de semana. Como chegamos até aqui? A devastação poderia ter sido evitada? É possível livrar-se de novas tragédias? Como?
Para especialistas, o que ocorreu foi uma combinação da força da natureza com a ação do homem. O tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Carlos Wagner Borges bem definiu o papel da natureza nos acontecimentos: “foi um tsunami de água doce”.
O meteorologista Hugo Ramos, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), aprofunda. “O Rio Iconha, que corta a cidade (de Iconha), tem a nascente em Vargem Alta, que registrou 230 milímetros de chuva em 24 horas. Como ele é mais estreito e a água vinda da cabeceira foi ganhando velocidade ao longo do curso, ela chegou à sede do município gerando um transbordamento muito grande. Como se fosse uma cabeça d’água de uma cachoeira.”
Mas, definitivamente, a culpa não é da natureza. A ocupação desordenada e a falta de atuação do poder público agravaram a situação. “Muitas cidades foram fundadas à beira de rios e córregos, reduzindo os espaços para passagem das enchentes e, consequentemente, aumentando as velocidades e os níveis de água das inundações”, explica Antonio Sergio Ferreira Mendonça, professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Ufes e Ph.D. em Engenharia de Recursos Hídricos.
Comunidade Morro do Sal, zona rural de Vargem Alta, foi atingida pela chuva Crédito: Fernando Madeira

TRAGÉDIA ANUNCIADA

E não se pode dizer que a devastação se de deu por falta de aviso. A coluna de Leonel Ximenes revelou que, desde 2011, o governo federal, por intermédio do Serviço Geológico do Brasil, emite alertas sobre os riscos de tragédias por inundações em cidades capixabas.  “o município não vem atuando de forma correta para impedir o avanço nas áreas não indicadas à habitação e precisa agir, fazendo sempre vistorias em áreas de mananciais, evitando ocupação de áreas ribeirinhas, construções irregulares e invasão de áreas não edificáveis.”
"O relatório nos orientou a elaborar, em 2012, o Plano Estadual de Desastres. Montamos esse comitê e a forma como funciona hoje. Criamos o Fundo Estadual de Defesa Civil e começamos a fazer diversas obras de infraestrutura"
Renato Casagrande - Governador

DAQUI PARA FRENTE

Ele garantiu que o governo do Estado fará investimentos da ordem de R$ 30 milhões em infraestrutura. “Mas as obras suportam até um certo ponto. Diminui o risco, mas não impede que uma quantidade de chuva dessa cause a destruição que causou.”
Apesar de ser considerado completamente atípico, especialistas do Incaper afirmam que, do ponto de vista meteorológico, o fenômeno pode se repetir na região. “Embora com menos força e com menor prejuízo, já tivemos eventos semelhantes em vários locais do Estado e é possível que aconteça de novo.”
Por isso, para o professor Antonio Sergio Ferreira Mendonça, é preciso priorizar medidas para impedir novos desastres. “É importante ressaltar que estas ações não são restritas a medidas estruturais, na forma de obras de engenharia. Em muitas situações, medidas não-estruturais, na forma de legislação, delimitação de áreas inundáveis, mapeamento de encostas e fiscalização, por exemplo, são mais efetivas.” 

Agravamento de danos decorrentes de chuvas requer controle de ações humanas

Mortes, desabrigo, isolamento da população, destruição de habitações, pontes e estradas e grandes prejuízos sócio-econômicos e ambientais ocorreram após tempestades, na semana passada, principalmente nos municípios de Iconha, Alfredo Chaves, Vargem Alta e Rio Novo do Sul. Nas últimas décadas, inundações e desmoronamentos causaram graves danos e perdas de vidas em dezenas de municípios capixabas.  

Certamente, esses desastres estão principalmente relacionados com a ocorrência de chuvas intensas ou com longa duração. Contudo, colocar toda a culpa nas chuvas, como tem sido recorrente por parte de muitas autoridades e técnicos, não condiz com a realidade. 

Diversos fatores relacionados com atividades humanas contribuem para que impactos relacionados com chuvas ocorram ou se agravem nos diferentes municípios capixabas. A ocupação de áreas inundáveis ou apresentando riscos de desmoronamento é um dos fatores mais importantes. Muitas cidades foram fundadas à beira de rios e córregos e habitações ocupam margens e, em muitos casos, leitos dos cursos de água, reduzindo os espaços para passagem das enchentes e, consequentemente, aumentando as velocidades e os níveis de água das inundações. Muitas encostas instáveis e apresentando altas declividades foram indevidamente ocupadas.

 Fator agravante para enchentes está relacionado com o assoreamento de leitos de rios e canais devido à erosão de terra e ao descarte inadequado de resíduos sólidos. Impermeabilização do solo em áreas urbanas reduziu a infiltração da água, aumentando enxurradas. Sistemas de drenagem urbana ou de estrada mal projetados ou construídos podem gerar ou agravar inundações. Caso não sejam priorizadas ações visando ao controle de atividades humanas que ampliam os danos causados pelas chuvas, a tendência é o aumento dos prejuízos e das perdas de vidas decorrentes de chuvas no Espírito Santo. 

É importante ressaltar que essas ações não são restritas a medidas estruturais, na forma de obras de engenharia. Em muitas situações medidas não-estruturais, na forma de legislação, delimitação de áreas inundáveis, mapeamento de encostas e fiscalização, por exemplo, são mais efetivas. A elaboração e a implementação efetiva de Planos de Drenagem Urbana e Zoneamentos de Uso e Ocupação do Solo bem fundamentados tecnicamente podem contribuir para desaceleração e redução do aumento dos graves impactos originados por chuvas nos municípios capixabas.

Antônio Sergio Ferreira Mendonça

Engenheiro, professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Ufes e Ph.D. em Engenharia de Recursos Hídricos

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