
Manoel Goes Neto*
Aqui neste espaço, em 17 de agosto de 2016, já havíamos registrado a nossa preocupação com a falta de políticas públicas para a preservação do nosso patrimônio histórico material e imaterial, e escrevemos: “A preservação do patrimônio histórico, no senso comum, tornou-se sinônimo de tombamento no Brasil. Acredito ser uma visão muito equivocada. Preservar é muito mais abrangente que o tombar. A preservação diz respeito a um conjunto de medidas, desde intervenções físicas no bem cultural até políticas públicas. São iniciativas destinadas à preservação do patrimônio para as gerações futuras. O tombamento é uma dessas medidas. No nosso país, não temos uma cultura preservacionista arraigada na sociedade, e que vemos claramente nos países de culturas milenares”.
Em 2015, ardeu em chamas o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, agora é morto o bicentenário Museu Nacional da Quinta da Boa vista, no Rio de Janeiro. Duzentos anos de preservação histórica, estudos e pesquisas reduzidos a cinzas, por falta de políticas públicas para preservação do nosso patrimônio histórico e cultural.
Na visão dos governantes, o nosso patrimônio histórico não é cultura. A Lei Rouanet veio para manter os museus e beneficiar prioritariamente a nossa cultura, mas foi totalmente desviada para o patrocínio dos grandes artistas e grandes shows. Temo pela sorte do Arquivo Nacional.
Na visão dos governantes, o nosso patrimônio histórico não é cultura. A Lei Rouanet veio para manter os museus e beneficiar prioritariamente a nossa cultura, mas foi totalmente desviada para o patrocínio dos grandes artistas e grandes shows
Essa tragédia me fez lembrar que uma vez perguntaram a Winston Churchill se não era mais adequado direcionar o orçamento dos museus britânicos para os esforços militares da 2ª Grande Guerra. O velho deu um trago em seu charuto e respondeu: “se é para fechar os museus, porque entramos em guerra?”.
Acredito firmemente que os gastos com a cultura devem ser investimento importante, mas para a maioria dos políticos, são vistos como custo. Então, não nos surpreende os sucessivos incêndios nos museus. O atual governo reduziu para quase zero o orçamento em cultura, e a sociedade civil não se manifestou, pouco se importara.
Vamos ouvir muitos políticos declarando falsos pêsames pelo incêndio que destruiu o nosso templo maior da preservação histórica. Lamentam por um lugar que jamais pensaram em pôr seus pés. E mais grave foi a declaração do ministro da Cultura Sergio Sá Leitão, que disse não ser do governo federal a responsabilidade pela tragédia, mas sim da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Deplorável!
Há candidatos que querem privatizar tudo, inclusive as poucas instituições do governo que investem em cultura. Aliás, volta e meia querem o fim da Lei Rouanet. De forma rasa, avaliam que subsídios à cultura é perda de dinheiro público. Certamente acham que o estado deve ficar fora do incentivo à cultura, acabando com o que resta da nossa história, da nossa memória nacional.
*O autor é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor do IHGES