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Sociólogo bolsonarista apoia descentralização de investimentos

Para Antônio Flávio Testa, doutor em Sociologia pela UnB e colaborador de Bolsonaro desde a pré-campanha, decisão de "descentralizar investimentos" em cursos de Humanas como Filosofia e Sociologia é correta

Publicado em 02/05/2019 às 21h03

O professor Antônio Flávio Testa é um “homem das Humanas” por excelência. Graduado nas três subáreas que compõem o campo das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política), tem também mestrado e doutorado em Sociologia. Todos esses títulos foram obtidos na Universidade de Brasília (UnB)*, onde ele hoje atua como pesquisador, além de ministrar cursos de Gestão Estratégica em pós-graduações da FGV.

O professor Antônio Flávio Testa,  um "homem das Humanas". Crédito: Amarildo
O professor Antônio Flávio Testa, um "homem das Humanas". Crédito: Amarildo

O sociólogo colaborou com a equipe de campanha de Jair Bolsonaro desde abril do ano passado. Após a vitória eleitoral, foi um dos 27 primeiros membros da equipe de transição – o único civil a compor o chamado “grupo dos generais” –, tendo coordenado subgrupos nas áreas de segurança pública, desenvolvimento regional, esporte, ciência e tecnologia. Hoje, segue colaborando voluntariamente com o governo.

Na última sexta-feira, para a perplexidade de grande parte da comunidade acadêmica, Bolsonaro anunciou que o MEC pretende “descentralizar investimentos” em algumas faculdades da área de Humanas, a fim de “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte”, como Veterinária, Engenharia e Medicina. Entre os cursos desprestigiados por Bolsonaro, estão Filosofia e Sociologia, precisamente a área em que Testa é bacharel, mestre e doutor pela UnB.

A decisão foi avaliada por muitos (por este signatário, inclusive) como prova do pouco apreço, para não dizer desprezo, manifestado por Weintraub e Bolsonaro em relação às ciências humanas em geral, particularmente a Filosofia e a Sociologia. Para Testa, entretanto, essa avaliação está equivocada, e a mensagem do presidente foi “distorcida pela imprensa”. Na opinião do acadêmico, a decisão anunciada é acertada.

“A decisão do presidente e do ministro, no meu modo de ver, está acertada. O que a imprensa fez foi distorcer o que foi dito. O que ele disse é que vai manter os investimentos que já estavam definidos e que haveria redução das áreas em que não haveria boa performance. Desde abril do ano passado, participei dos estudos do núcleo de campanha nas áreas de ciência, educação e tecnologia. Há vários estudos do CNPq mostrando que o Brasil está praticamente em último lugar nas áreas de estatística, matemática, geologia, bioquímica, tecnologia da informação, desenvolvimento de pesquisa, inovação, patentes. Ou seja, nos últimos 15 anos, o Brasil perdeu muito. E o Brasil é muito inovador! Já faz mais de duas décadas que temos grandes pesquisas nas áreas de pecuária, botânica e muitas outras. A Embrapa é referência nessas áreas. Na própria área de software, há uma procura crescente dos Estados Unidos por pessoas que se formam nessa área. No entanto, o Brasil nunca transformou isso em estratégia. Não é culpa do PT, não é culpa de ninguém. É uma questão de falta de estratégia. Nos últimos anos, muito pouco esforço tem sido feito para desenvolver científica e tecnologicamente o país.”

Segundo Testa, descentralização de investimentos não significa corte de verbas, mas redirecionamento de recursos para pesquisas consideradas prioritárias para o desenvolvimento nacional.

“Não quer dizer corte de verbas. O negócio é que se comunicar pelo Twitter é algo que não deveria acontecer. Na época do regime militar, havia uma perseguição grande aos cursos de Filosofia. Muitos foram fechados e depois voltaram. São cursos muito importantes. O que tem acontecido no Brasil, porém, é um desvirtuamento de determinadas áreas. Há um excesso de alocação de recursos, por exemplo, em pesquisas sobre gênero. Multiculturalismo e questões de identidade têm que ser trabalhadas, é claro. Mas não pode ser só isso. Na minha interpretação, o que haverá é um redirecionamento a questões consideradas prioritárias para o desenvolvimento do país e um desprestígio daquilo que é superficial e que não está dando certo. Isso é uma questão gerencial. É assim no mundo todo. É que ele (Bolsonaro) tem um palavreado que a imprensa usa desvirtuando. Faculdade que usar mal o recurso público tem que ser avaliada pelo MEC e, se não cumprir o que foi acertado, vai ter que sofrer cortes de investimentos.”

COMUNICAÇÃO FALHA

Conforme mencionou de passagem na resposta acima, Testa avalia a comunicação do governo Bolsonaro como falha, por estar excessivamente concentrada no Twitter.

“Claro, isso é óbvio. O Twitter é uma ferramenta. Mas há outras ferramentas, há a comunicação institucional. E você tem a fala da liderança, que é a do presidente da República. Ele não pode falar só pelo Twitter, porque ele não é um Trump. Até porque o Trump fala aquelas coisas também que ninguém entende. O Twitter é muito bom, mas não é o melhor. Acho que o presidente deveria conversar mais com as lideranças, usar o carisma que ele tem, porque é uma pessoa muito carismática, para conversar mais com as pessoas. Deveria ser mais aberto ao diálogo.”

CRÍTICAS A FUSÕES

Outra crítica do colaborador do governo é à fusão de ministérios – segundo ele, medida problemática e ineficaz.

“A Casa Civil tem problemas. Sou radicalmente contra as fusões, pois isso sobrecarregou alguns ministérios e gera problemas de gestão. Veja, por exemplo, o Ministério da Cidadania (antigo Ministério do Desenvolvimento Social, que absorveu o Ministério do Esporte e o da Cultura). As áreas subordinadas não produzem porque o ministro não decide. Isso já foi tentado anteriormente e não deu certo. Foi o discurso de campanha do Bolsonaro: menos ministérios para diminuir gastos. Mas não vai diminuir nada. Vão demitir, mas demissão não quer dizer eficiência. Do jeito que está em algumas áreas, não está sendo eficiente. Cidadania não vai funcionar de jeito nenhum.”

Segundo Testa, o Ministério do Turismo “também não está funcionando”, e o chefe da pasta, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), está com os dias contados: “Esse vai ser o primeiro a ser rifado na próxima leva agora”.

AQUI VAI TUDO BEM

Por outro lado, o professor enumera várias áreas em que a administração, a seu ver, está indo muito bem: “Infraestrutura, Desenvolvimento Regional, Minas e Energia, Ciência e Tecnologia, Defesa, Secretaria de Governo, o GSI (Gabinete de Segurança Institucional)... Os ministros militares vão muito bem. Ainda acho que ele (Bolsonaro) pode fazer um bom governo, sim”.

* A UnB é uma das três primeiras universidades federais cujo orçamento anual foi cortado em 30% pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, sob o controverso argumento de que não apresentam o desempenho acadêmico esperado e promovem “balbúrdia”. As outras são a UFBA e a UFF. O anúncio foi feito na última terça, dia em que fizemos a entrevista com Testa (mas antes de termos essa informação).

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