O Palácio Domingos Martins não tem fama de ser mal-assombrado. Ultimamente, porém, o plenário Dirceu Cardoso tem sido habitado por um fantasma. Nas últimas semanas, quem acompanha as sessões da Assembleia não para de se perguntar: por onde anda Theodorico Ferraço (DEM)? O veteraníssimo deputado mal tem dado o ar da graça em plenário. De quando em vez, dá sinal de vida. Mas são aparições fugazes, meio fantasmagóricas: surge de repente; você pisca o olho, já sumiu. Às vezes desce ao plenário para registrar presença no painel e não ter o ponto cortado. Às vezes, nem se dá a esse trabalho. Muito raramente tem participado de votações ordinárias. Diante do mistério, chegamos a cogitar pôr um anúncio de “procura-se” na coluna. Em vez disso, ligamos na sexta para Ferraço. Ele atendeu e mandou avisar: “Não estou morto!” Nem física, nem politicamente.
E o recado é dirigido, muito particularmente, para o governador Renato Casagrande (PSB). Ferraço não chega a estar rompido com o governo. Prova disso foi sua participação importante, de última hora, na aprovação do requerimento de urgência para votação dos projetos de promoções da PMES, na última quarta-feira – atendendo, segundo ele, a uma ligação direta do governador. Mas, pelo que indica o próprio Ferraço, o rompimento com o governo pode não estar longe de se consumar. A não ser que o governo mude o tratamento dispensado a ele.
Segundo o ex-prefeito de Cachoeiro, a forma como o Executivo o tem tratado – muito aquém de suas expectativas ao ser um dos primeiros a apoiar o retorno de Casagrande ao Palácio – é exatamente o que explica seu silêncio e seu sumiço em plenário. Ferraço não nega nem uma coisa nem outra. Ao contrário: admite que adotou essa postura, de modo calculado.
“O que você está falando é correto. Estou deputado e estou numa expectativa de algumas atitudes que eu possa vir a tomar. Mas estou num momento tranquilo e estou passando a limpo tudo aquilo que eu tinha dito que ia acontecer e que agora realmente está acontecendo na Assembleia. Não é normal um deputado como eu, com a experiência que tenho, ficar na calmaria em que estou. Não é normal alguém da minha experiência não ter tesão de ser um deputado lutador.”
Aos 81 anos, então, Theodorico Ferraço perdeu o tesão em fazer política?
“Não perdi o tesão. Pelo contrário! Mas não é hora de usá-lo ainda. Vou agir no momento em que julgar que devo agir. Em face de tudo o que está acontecendo, só me resta aguardar os próximos acontecimentos. A minha experiência me ordena que eu fique absolutamente em silêncio, por enquanto.”
O recolhimento, assim, é premeditado. E, segundo ele, vai durar até meados de junho, “prazo” que dá ao governo para mudar a postura com ele. Do contrário, ele também ameaça mudar a sua. Leia-se: após os meses de retiro voluntário, voltará a fazer barulho em plenário. E passará a dar trabalho ao Executivo.
“Vou até junho nesta minha completa cautela e tranquilidade. Não estou morto! Aparentemente, estou muito calmo, muito tranquilo. Mas estou preocupado com a política que está sendo feita no Estado”, afirma ele. “Não estou encontrando por parte do governo uma palavra do tipo: ‘Ferraço, vamos trabalhar juntos. Precisamos de você’. Tenho um limite para esperar isso. Se eu chegar à conclusão de que o governo não me deseja, vou procurar o meu caminho e voltar a ser o deputado guerreiro que sempre fui.”
E aí se inicia a série de recados bem ao estilo ferracista. Para começar, ele avalia que o PSB, partido de Casagrande, está querendo tudo para si e deixando espaços de menos para serem ocupados por quem deseja ajudar a administração.
“O governo primeiro tem que se conscientizar de que não pode ser só do PSB. O pessoal do PSB precisa se convencer de que o partido tem só dois deputados estaduais. Eles não têm a Assembleia e não são os donos do governo. Isso só prejudica o próprio governador.”
Além disso, Ferraço se ressente de pessoas “da cozinha e da copa” do Palácio que estariam “atrapalhando o governo”, na medida em que trabalhariam para isolar de Casagrande determinados aliados (como ele mesmo). “Me preocupo em ver certas pessoas com muita entrada no governo e a quem o governador está dando muita credibilidade. Isso pode se voltar contra o governo adiante”, profetiza, sem dar nomes. “Não é o momento. Mas tem um pessoal trabalhando criminosamente no Palácio para isolar o governador de quem pode ser útil e ajudá-lo. Isso está acontecendo com outros deputados. O que adianta eu morrer de amores pelo Renato se ele não morre de amores por mim e por meu trabalho? Então é melhor que ele fique com as pessoas que comandam o Palácio.”
Quanto ao grande mistério – afinal, onde fica Ferraço durante as sessões plenárias? –, ele mesmo trata de desvendar: “Fico no meu gabinete, assistindo à sessão (pela TV) e observando. Olho a pauta, para ver se há algo que precise de mim”.
Foi o caso na última quarta-feira. “O próprio governador me ligou e fez um apelo para que eu atendesse. Quando sou chamado, eu atendo. Só que noto pessoas ligadas a ele na sua copa e cozinha que não desejam a minha presença. E, se não desejam a minha presença, é melhor eu procurar outro caminho.”
As ameaças não tão sutis de Ferraço vêm em um momento relativamente delicado para o governo – logo, muito oportuno para ele cobrar mais “atenção”. Nos projetos de promoções da PMES, a aprovação do requerimento de urgência foi apertada (17 a 12, com voto de Ferraço). A análise dos projetos em plenário foi marcada pela rebelião de alguns deputados da base, que passaram a se dizer “independentes” e se opuseram aos projetos do Palácio. Isso mostrou a necessidade de o governo reconstruir sua base parlamentar ou, no mínimo, solidificá-la, o que pode implicar em fazer concessões.
A um Ferraço isolado como nunca na Assembleia, só resta hoje pleitear espaço (nomeações) no Executivo. E talvez o governo não deva ignorar as ameaças.
Do contrário, o “fantasma” que hoje paira no Palácio Domingos Martins pode passar a assombrar o Anchieta.
Na última segunda-feira – antevéspera da inclusão em pauta dos projetos de promoções da PMES na Assembleia –, um antigo aliado de Ferração foi promovido de agente de serviços a chefe da Ciretran de Cachoeiro: o advogado Maurides Correa. Ele ocupara o cargo no governo passado, mas foi exonerado em julho de 2017 após Ferraço romper com Paulo Hartung. Em março passado, Itamar Ayub Alves, cunhado do deputado, foi nomeado chefe da Ciretran de Marataízes.
Aconteceu durante a votação do projeto de Casagrande que deu uma ajuda fiscal aos municípios capixabas: em clima de regressão à 5ª série, prefeitos acomodados no fundo do plenário vaiavam discursos contrários ao projeto e aplaudiam os favoráveis. Zé Esmeraldo exclamou: “As prefeituras estão quebradas!” E os prefeitos aplaudiram essa frase!!! Como se todos tivessem zero culpa por essa quebradeira. Algo está muito errado...
Os projetos fixando novas regras para promoções de PMs e bombeiros já foram aprovados, o novo ciclo promocional já se dará sob as novas leis, mas um registro precisa ser feito: chamou muita atenção a maneira como alguns representantes das categorias, inclusive em plenário, defenderam a Constituição no debate – especificamente, o preceito constitucional da presunção de inocência, para sustentar que todos que respondem a processos deveriam ter direito a promoção.
Muitos desses representantes, inclusive em plenário, incitaram a greve de 2017 e, no episódio, não mostraram tanto apego à letra da Constituição. A mesma Carta que prevê a presunção de inocência (art. 5º) proíbe militares de fazer greve. Está no artigo 144.
Ferraço admite estar priorizando o mandato da mulher, Norma Ayub, ao seu. “É verdade. Estou usando o mandato dela em carona para conseguir objetivos, porque aqui no governo do Estado ainda não pude ser deputado no interesse das comunidades que represento. Ela encontra com ministros a abertura para trabalhar que eu não estou encontrando aqui.”
As votações dos projetos de promoções da PMES, nesta semana, foram tensas na Assembleia. Ao abrir uma sessão, o presidente da Mesa, Erick Musso, invocou a proteção de Deus, “mais do que nunca”. Mas também houve momentos de humor com pitadas de tensão: ao falar de um dos dois microfones no chão do plenário, o líder do governo, Enivaldo dos Anjos, disse, em tom de gracejo, que o outro era o da “rebelião”.