Há algo de estranho no Reino de Vila Velha... e não é o
cheiro esquisito que às vezes exala dos valões a céu aberto que cortam a cidade,
tampouco a interminável fila de bikes
elétricas paradas no calçadão da Praia da Costa.
Incrivelmente, mesmo com quase 350 mil eleitores aptos a
votar, o segundo maior colégio eleitoral do Espírito Santo (atrás somente da
Serra) não terá nem um único deputado nos próximos quatro anos na Assembleia
Legislativa. Nenhum dos 30 eleitos pode ser considerado um autêntico
“representante de Vila Velha”.
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Mais uma vez, como já ocorre na atual legislatura, a segunda
cidade mais populosa do Espírito Santo ficará vazia de representação no Poder
Legislativo Estadual. “Ah, mas isso não é normal”? Nem um pouco.
Só para efeito de comparação, tomemos as outras quatro
grandes cidades da Região Metropolitana.
Cariacica terá dois representantes: os atuais vereadores
Açucena (PT) e Dr. Fernando Santório (União).
A Serra terá quatro: Vandinho Leite (MDB), Alexandre
Xambinho (Podemos), Pablo Muribeca (Rep) e Pastor Dinho (PL).
Vitória terá uma porção: Camila Valadão (PSol), candidata a
prefeita da cidade em 2024; os atuais vereadores Karla Coser (PT), Davi Esmael
(Rep) e Dárcio Bracarense (PL); os deputados reeleitos Gandini (Podemos) e Zé
Esmeraldo (União). Isso sem contar Mazinho dos Anjos (MDB) e Capitão Assumção
(PL), que não têm uma votação tão relacionada a Vitória, mas já foram
candidatos a prefeito da cidade – respectivamente, em 2020 e 2024.
Entre os 30, estão os reeleitos Hudson Leal (Agir), Janete
de Sá (PSB) e Danilo Bahiense (PL). Os três têm conexões políticas com o
município... Mas nenhum deles é um “voto raiz canela-verde”, ou tem ali o seu
“reduto eleitoral”.
Hudson já foi até candidato a vice-prefeito de Vila Velha,
mas tem um voto pulverizado por todo o Estado, assim como Janete. Bahiense mora
na cidade e seu comitê de campanha ficava na Praia da Costa. Mas sua votação
vem em parte do bolsonarismo, em parte da área da segurança pública. Não é um
voto bairrista ou paroquial.
Enquanto isso, até cidades populosas (ou não tanto) do
interior terão representantes.
Aracruz terá dois: Jeesala Coutinho (MDB) e o Delegado
Leandro Sperandio (Podemos).
Linhares terá o atual vice-prefeito, Franco Fiorot
(Podemos).
Colatina elegeu o vereador Dr. Vitor Louzada (PL).
Cachoeiro terá o ex-prefeito Victor Coelho (PSB).
Até Guarapari fez o vereador Thiago do Casal Policial (PL).
E quanto a Vila Velha? Quem fará a ponte com a administração
do prefeito Arnaldinho Borgo (PSDB) nos próximos dois anos?
E mais importante: o que é que pode explicar isso? É um caso
a ser examinado.
A hipótese da alta
fragmentação dos votos
Uma teoria é a da alta pulverização dos votos, com muitos
candidatos do município concorrendo a uma vaga na Assembleia e a votação dos
eleitores vilavelhenses bastante fragmentada entre eles – ao contrário de
outros “distritos eleitorais”, que concentram os votos em um candidato local.
Neste ano, mais uma vez, tivemos vários candidatos de Vila
velha na disputa, incluindo um punhado de vereadores. O que mais se aproximou
de uma vaga foi o veteraníssimo Doutor Hércules Silveira (PP), atualmente
vereador da cidade. Com 18.327 votos, ele ficou na segunda suplência da
Federação União Progressista.
Também ex-deputado e médico, o Dr. Rafael Favatto, sem
mandato desde 2022, foi outro que tentou voltar para a Assembleia, dessa vez
pelo PL. Com 17.208 votos, ficou como o 1º suplente do partido.
Além de Hércules e Favatto, podemos citar Lyza Herzog
(PSDB), principal aposta do atual prefeito e apresentada na campanha como “a
estadual do Arnaldinho”. Lyza não é a Minelli, mas também dançou. Com 13.879
votos, ela não teve o desempenho pessoal necessário para se eleger. Ademais, a
chapa do PSDB ficou longe de atingir o quociente eleitoral para beliscar uma
vaga.
Também na chapa do PSDB, o vereador e ex-secretário
municipal de Esportes e Lazer Anadelso Pereira não teve apoio maciço de
Arnaldinho, ficando com apenas 6.151 votos.
Além deles, concorreram, por exemplo, o ex-vereador Bruno
Lorenzutti (Rep), com 9.697 votos; os vereadores Devacir Rabello (PL), com
16.946 votos; Pastor Fabiano (PL), com 8.779 votos; Rogério Cardoso (Podemos),
com 7.257 votos; Léo Pindoba (Podemos), com 6.954 votos; Carol Caldeira (DC),
com 6.181 votos; Patrícia Crizanto (União), com 5.385 votos.
Por outro lado, outras cidades, como Serra e Vitória, também tiveram muitos candidatos e conseguiram eleger alguns.
Os deputados eleitos
por Vila Velha
Ao longo deste século, Vila Velha sempre teve pelo menos
dois representantes no plenário da Assembleia, até a coisa começar a “dar ruim”
na eleição geral passada, em 2022.
2002: Cláudio
Vereza (PT), entre outros;
2006: Cláudio
Vereza, Hércules Silveira, Rafael Favatto e Jardel dos Idosos (cassado no meio
do mandato);
2010: Cláudio
Vereza, Hércules Silveira e Rodney Miranda (não era exatamente “de Vila Velha”,
mas, dois anos depois, eleger-se-ia prefeito da cidade);
2014 e 2018:
Hércules e Favatto;
2022 e 2026:
nenhum.
Os candidatos mais
votados em Vila Velha este ano
Considerando só os votos para estadual em Vila Velha, o
ranking ficou assim:
. Dr. Hércules (PP): 15.767
votos – não eleito
. Camila Valadão
(PSol): 13.036 votos – eleita
. Devacir Rabello
(PL): 12.452 votos – não eleito
. Lyza Herzog (PSDB):
11.918 votos – não eleita
. Capitão Assumção
(PL): 10.622 votos – eleito
. Karla Coser (PT):
8.543 votos – eleita
. Dárcio Bracarense
(PL): 7.599 votos – eleito
. Açucena (PT):
6.377 votos – eleita
. Rafael Favatto
(PL): 6.166 votos – não eleito
. Bruno Lorenzutti
(Rep): 6.150 votos – não eleito
. Léo Pindoba
(Podemos): 6.016 votos – não eleito
Três aliados de
Arnaldinho com Pazolini no 2º turno
E, já que estamos falando de Vila Velha, uma constatação:
três vereadores da base do prefeito, apoiador de Ricardo Ferraço (MDB),
declararam apoio a Pazolini no 2º turno: Carol Caldeira (DC), Anadelso Pereira
(PSDB) e Renzo Mendes (Podemos).
Renzo cuspiu marimbondos sobre Arnaldinho, alegando falta de apoio. Ele foi candidato a deputado federal. Teve 9.172 votos no total, sendo 6.713 em Vila Velha.
A posição de
Arnaldinho
Enquanto isso, o próprio Arnaldinho, segundo sua assessoria,
mantém seu apoio a Ricardo. De acordo com o governador, o prefeito participou
pessoalmente de uma grande reunião com prefeitos aliados, na semana passada, e
de uma reunião virtual com prefeitos aliados na última segunda-feira (12).
Da votação de Victor
Linhalis à de Manu
Em 2022, apostando todas as suas fichas e colocando toda a
sua base para trabalhar por Victor Linhalis, “o federal do Arnaldinho”, o
prefeito conseguiu fazer com que seu então vice-prefeito se elegesse. Victor
obteve um total de 53.483 votos no Espírito Santo, sendo 78,2% só em Vila
Velha. Com 41.853 votos, foi o campeão para federal na cidade.
Já nesta eleição, o prefeito transferiu o título, e “a
federal de Arnaldinho” foi Emanuela Pedroso, a Manu (PSB). A ex-secretária
estadual de Governo também se elegeu, com votação até maior que a de Victor
quatro anos atrás: 69.398.
Mas seus votos ficaram bem menos concentrados em Vila Velha.
Considerando somente a cidade, ela obteve 15.060 votos (21,7% do seu total).
Foi só a 4ª mais votada no município, atrás de Lucas Polese (PL), Jack Rocha
(PT) e Coronel Ramalho (Rep). E teve 26,8 mil votos a menos do que teve Victor
Linhalis há quatro anos em Vila Velha. Não chegou nem à metade da votação de
Victor na cidade em 2022.
Por outro lado, é preciso ressalvar que dessa Arnaldinho mudou a estratégia: em vez de pôr todos os ovos na mesma cesta, priorizou a campanha de Manu, mas também escalou regimentos de seus apoiadores para trabalharem em prol de outros candidatos a federal.
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