Renato Casagrande (PSB) inicia hoje, oficialmente, o seu 2º mandato como governador do Espírito Santo. No momento exato em que Paulo Hartung lhe transmitir a faixa, passarão a repousar sobre os seus ombros também alguns desafios, tão grandes quanto o privilégio que os capixabas lhe concederam em 2018: o de voltar a governar o Espírito Santo após ter sido derrotado por Hartung na tentativa de reeleição em 2014.
O maior dos desafios que virão com a faixa governamental será o de realizar, numa conjuntura econômica nacional mais favorável, os investimentos que Hartung não fez nos últimos quatro anos em um período de vacas magérrimas, sobretudo nas áreas de infraestrutura e de mobilidade urbana, bem como na melhoria dos serviços públicos essenciais.
É consenso entre analistas: faça o que fizer o presidente Jair Bolsonaro – que também toma posse hoje, em Brasília –, a economia brasileira seguramente vai crescer, em 2019, acima do pífio crescimento de 1,3% do PIB em 2018 (segundo projeção do Banco Central). A vaca agora vai comer melhor.
Nesse novo contexto, o que se espera de Casagrande? Mais investimentos. Mas sem perder de vista o compromisso com a responsabilidade fiscal, reafirmado por ele inúmeras vezes no decorrer da campanha. Vale dizer: sem colocar em risco o equilíbrio fiscal herdado por ele de Hartung. Este, na última quadra, teve por grande mérito manter as contas do Estado organizadas e os compromissos financeiros em dia, em um momento economicamente dificílimo. Fez a “travessia do deserto”, como disse ele mesmo na última sexta, sem quebrar o Estado.
Mas o efeito colateral do ajuste fiscal de PH foram investimentos tímidos ao longo dos últimos quatro anos (o que tem custo social). De 2015 a 2018, o governo estadual investiu R$ 3,3 bilhões, sendo só R$ 1,3 bilhão com recursos próprios.
Em um cenário econômico presumivelmente melhor, de reaquecimento da economia, a arrecadação estadual tende a melhorar. Nesse caso, espera-se que Casagrande reacelere a injeção de recursos onde a população mais necessita, começando a tirar do papel, por exemplo, projetos de mobilidade urbana anunciados por ele ainda no seu governo anterior (2011-2014); expandindo a rede de escolas em tempo integral iniciada por Hartung; pacificando comunidades assombradas pelo crime na Grande Vitória; desarmando a bomba da superlotação dos presídios estaduais (déficit de 8 mil vagas); apresentando soluções para o eterno drama dos corredores abarrotados de pacientes nos hospitais públicos.
Casagrande, por outro lado, volta ao cargo sob certa pressão. É que uma coisa é assumir um Estado em crise, quebrado. Nessa hipótese, o governante que chega tem tudo para, sem proezas e feitos mirabolantes, realizar um governo melhor do que o anterior. Mas não é o caso aqui. O Espírito Santo deixado por Hartung é um Estado financeiramente saudável – um dos poucos do país de que se pode dizer isso e o único a receber nota A do Tesouro Nacional na última avaliação –, o que fez PH ser celebrado, no fim de 2018, como uma espécie de mago da gestão fiscal por boa parte da imprensa brasileira.
Além disso, no Ideb 2018, a educação do Espírito Santo obteve a maior nota entre todos os Estados. Com 28 mortes por 100 mil habitantes, atingimos em 2018 o menor índice de homicídios em praticamente três décadas. São conquistas em que o governo Casagrande não poderá retroceder, ao mesmo tempo em que precisará evoluir em outros pontos.
A História dá uma segunda chance para poucos governantes. Os eleitores, ainda menos. Casagrande tem que aproveitar a sua rara nova oportunidade.
Paulo Hartung participou do lançamento de livro sobre a história da Igreja do Rosário (Prainha) na noite de quinta, após o sepultamento de Gerson Camata. Muito emocionado, estendeu ao também ex-governador Max Mauro, presente na cerimônia, suas homenagens a Camata. Chamou o pai de Max Filho de amigo. E disse que teve “o privilégio” de conviver com Mauro e com Camata quando começou na vida pública.
As trajetórias de Max Mauro e Hartung são marcadas por alguns momentos de proximidade e muitos de tensionamento e de desentendimento. Em 2002, Hartung derrotou o velho Max em uma renhida disputa pelo governo estadual.
Em 2015, o governo Paulo Hartung investiu um total de R$ 667 milhões, considerando recursos próprios e via operações de crédito. Em 2016, o montante caiu para R$ 581 milhões. Em 2017, foram R$ 670 milhões. Já em 2018, os investimentos do governo chegaram a R$ 1,4 bilhão (sendo R$ 800 milhões só com recursos próprios). Um desempenho, portanto, mais de duas vezes melhor do que em qualquer ano anterior.
Os números oficiais foram repassados pelo agora ex-secretário da Fazenda, Bruno Funchal. Ele lembra que, no início de 2018, Hartung chegou a prever investimento total de R$ 1 bilhão no ano, sendo R$ 600 milhões com recursos próprios. A superação da expectativa se deve à melhora na arrecadação no decorrer do ano em ICMS (11% a mais) e receitas de petróleo: o governo previa receber
R$ 1,35 bi, mas arrecadou R$ 1,8 bi.