O presidente Jair Bolsonaro dá fortes sinais de estar perdido. Como na mitologia grega, o "mito" está preso no Labirinto de Creta. A diferença é que o labirinto do Mitotauro não foi construído a mando do rei Minos, mas pelo próprio presidente. O "rei Mitos" construiu e segue diligentemente a construir, consciente disso ou não, um labirinto para si mesmo e para sua confusa administração.
Passados quase cinco meses de governo e a protocolar tolerância com governantes em início de mandato, é possível agora constatar, com base em excesso de evidências fornecidas semanalmente pelo próprio presidente: o pesselista pode até provar o contrário (oxalá o faça), mas, até o momento, não demonstra ter a menor ideia de como conduzir o país e não transmite a menor segurança de ser capaz de tirá-lo da crise em que se encontra – missão essa, é bom lembrar, à qual se candidatou espontaneamente e para a qual foi eleito pelos seus concidadãos.
Presidente perdido é igual a Brasil sem rumo. Com o "capitão" no leme, o país continua à deriva. Dia após dia, o 17 está virando 7 a 1. Bolsonaro elegeu-se prometendo um governo sem "viés ideológico", aí incluídas as relações diplomáticas e as medidas de impacto doméstico.
Na pré-história da campanha de 2018, todas as pistas já indicavam que isso não passava de um slogan, conversa de candidato. Uma vez no governo, a realidade se impôs. E se traduz, até agora, em uma administração muito mais ideológica do que o mais pessimista poderia imaginar.
Decisões que deveriam ser regidas pela boa técnica, por critérios racionais e gerenciais acima de paixões políticas, têm sido contaminadas por uma explícita sede de vingança e de retaliação a uma esquerda apeada do poder desde 2016 e derrotada por ele nas urnas.
Conveniente, aliás, recordar ao presidente que ele, na verdade, venceu as eleições. É, portanto, o presidente da República. Seu tempo de governo está correndo. Por vezes, porém, parece agir e decidir como se houvesse sido derrotado, como se a esquerda ainda governasse o Brasil e fosse ele não o presidente, mas ainda aquele deputado de oposição do baixíssimo clero, ou um franco-atirador das redes sociais.
Quase tudo é abordado por Bolsonaro em termos de confronto ideológico, da eterna e surrada dicotomia entre direita e esquerda (quando esta última não dá lugar a uma "ameaça comunista" em sua retórica igualmente mofada). A quem interessa a perenização desse conflito?
No dia 28 de outubro, ao consagrar-se vitorioso nas urnas, Bolsonaro prometeu governar o Brasil para todos. Mas tanto na retórica – incessantemente inflamada e belicista – como nas decisões de governo, empenha-se em manter acesa a chama do "nós contra eles" inaugurada por Lula, a qual cinge o país ao meio e da qual o próprio Bolsonaro tanto se beneficiou como candidato.
Como candidato. Bolsonaro não consegue descer do palanque, matar e enterrar o personagem da campanha. E governar. Verdadeira e simplesmente, governar. Para todos e todas. Cada vez mais, acena só para seus seguidores mais radicalizados, um nicho do seu eleitorado. Só faz se isolar.
Não raras vezes, decisões que têm sido tomadas em termos de "direita contra esquerda" são tão difíceis de compreender sob um ângulo técnico que têm ensejado debates muito acima de qualquer ideologia: não em termos de uma ideologia versus outra, mas em termos do mínimo bom-senso contra a total falta de noção.
Noção, a propósito, tem faltado ao presidente em tudo: noção da gravidade de suas palavras, das consequências de suas medidas, da responsabilidade e da austeridade inerentes ao cargo ao qual chegou por vontade das urnas. Falta-lhe, acima de tudo, noção do que realmente é prioritário para o Brasil e os brasileiros neste momento crucial de nossa História.
Enquanto todos os indicadores econômicos voltam a derreter e analistas já advertem para a ameaça de uma "re-recessão", Bolsonaro se perde (e, aparentemente, se compraz) em uma cruzada ideológica inócua e contraproducente, movida por algumas obsessões que ele levou para o Planalto e por um revanchismo tão raivoso quanto inútil contra inimigos reais ou imaginários.
Quando não está concentrado nessa cruzada estéril para o país, dedica-se a uma agenda infértil dominada por questões periféricas que vão do golden shower à amputação peniana (assuntos urológicos, aliás, são uma das suas fixações), passando por radares e placas do Mercosul.
Com quem as pessoas devem ou não devem se relacionar sexualmente? Quais os fetiches e os excessos que certos foliões cometem em público no carnaval? Literalmente, "o que é golden shower?" O que o comercial de um banco público pode ou não exibir? São essas as questões que realmente merecem a atenção do nosso chefe de governo e de Estado, enquanto o desemprego cresce, o PIB cai, a produção industrial idem, os investidores fogem, o dólar e até a inflação voltam a subir? Eis as ameaças reais, merecedoras, portanto, de preocupação real.
Bolsonaro diz que pegou um país destruído. Em grande parte, isso é verdade. Como também é verdade que "a culpa é do PT" – a maior fatia da culpa, não há dúvida. Mas cabe ao presidente reerguer este país. Não acabar de destruí-lo. Governe, presidente. Precisamos que o senhor governe. Antes de "endireitar o Brasil", é preciso endireitar o governo.
Diversionismos, fantasias e obsessões ideológicas não ajudarão o país (nem o senhor) a encontrar a saída do labirinto.
Inflação em alta
Pressionado pela alta dos preços de alimentos, combustíveis e remédios, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, ficou em 0,57% em abril – a maior taxa para um mês de abril desde 2016. Com o resultado, o índice acumulado em 12 meses avançou para 4,94%, contra os 4,58% nos 12 meses imediatamente anteriores. Segundo o IBGE, trata-se do maior índice para o período de 12 meses desde janeiro de 2017 (5,35%).
Indústria em queda
A produção industrial brasileira registrou em março uma queda de 1,3%, na comparação com fevereiro, segundo divulgou o IBGE no início de maio. Com mais este resultado negativo (em janeiro também houve queda), o setor passou a acumular queda de 2,2% no primeiro trimestre. O índice de março é o pior resultado mensal desde setembro de 2018, quando houve queda de 2,1% na produção. Na comparação com março do ano passado, a produção caiu 6,1%. No acumulado em 12 meses, o setor passou a ter queda de 0,1% – primeiro resultado negativo desde agosto de 2017, o que confirma a leitura de perda de ritmo da economia brasileira.
Revisão do PIB
Na segunda-feira, o Itaú rebaixou sua previsão de crescimento do PIB em 2019 para 1%. A estimativa anterior era de 1,3%. No mesmo dia, o Banco Central divulgou a pesquisa Focus, com economistas rebaixando pela 11ª semana seguida a projeção de crescimento do PIB para este ano, agora para 1,45%. Na quarta-feira, o Banco Central divulgou o IBC-BR do 1º trimestre, prévia do desempenho da economia: retração do PIB de -0,69% de janeiro a março.
Bolsa perde fôlego
Também na última quarta-feira, o índice Ibovespa recuou ao patamar do dia 3 de janeiro. Já o dólar voltou a ultrapassar a casa dos R$ 4,00, atingindo o maior pico desde outubro do ano passado (em plena tensão do segundo turno eleitoral). Para fazer justiça, esse último indicador tem sido muito influenciado também pela guerra comercial dos EUA com a China.
Fora do clube
Pela primeira vez em 21 anos, o Brasil ficou de fora da lista dos 25 melhores países para investir feita pela consultoria empresarial norte-americana A.T. Kearney. O ranking é elaborado com base em uma pesquisa realizada com 500 executivos seniores das principais corporações do mundo sobre a probabilidade de as empresas investirem diretamente naquele país nos próximos três anos.
Labirinto de Treta
Enquanto isso, relatório do Ministério Público do RJ aponta indícios de que o senador Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente, realizou transações imobiliárias a preços completamente fora do mercado para lavar dinheiro. A investigação também reúne elementos que indicam a prática de organização criminosa para desviar recursos públicos no gabinete do hoje senador pelo PSL quando ele era deputado estadual no Rio.
Pra que isso?
Após ter sido praticamente declarado persona non grata pelo prefeito de Nova York, Bolsonaro foi receber sua homenagem em Dallas, cujo prefeito também decidiu não lhe dar as boas-vindas. O presidente ofendeu manifestantes, leu o semblante de Bush, bateu continência à bandeira dos EUA, adaptou a primeira parte de seu bordão – "Brasil e Estados Unidos acima de tudo" – e errou a segunda – "Brasil acima de todos".