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Vitor Vogas

O duelo de Davi contra o guloso Golias no plenário da Assembleia

Provando que nem tudo está "tranquilo e harmonioso" na relação com a base governista, deputados passaram a fazer protestos nominais em plenário, dirigidos à pessoa do secretário-chefe da Casa Civil de Casagrande, Davi Diniz

Publicado em 27 de Março de 2019 às 17:41

Públicado em 

27 mar 2019 às 17:41
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Charge Crédito: Amarildo

O secretário-chefe da Casa Civil nunca será candidato a Mr. Simpatia nem terá a menor chance de figurar em listas de secretários estaduais mais queridos pelos deputados. Isso em função da própria natureza da função, hoje ocupada por Davi Diniz (PPS). É ele o principal encarregado de representar o governador na articulação política com os parlamentares estaduais.

Falar em “articulação política” pode soar até bonito, mas o significado prático disso não é assim tão simpático para os próprios deputados. Em vez de conseguirem se reportar diretamente ao governador para lhe apresentar seus pedidos, eles em geral são obrigados a passar por esse intermediário, que filtra o que vai à frente ou não. Muitas vezes, o pedido morre ali.

O chefe da Casa Civil serve, assim, como o anteparo do governador. É como um ouvidor-geral do Estado, mas voltado exclusivamente para a categoria muito específica dos políticos aliados do governo. Assim, poupa o próprio governador da fadiga de ter que ouvir todos os pleitos da insaciável base, os quais sempre chegam em profusão (basicamente, cargos no governo, liberação de emendas e mais cargos no governo). Mais importante ainda: poupa o chefe do mal-estar político de ter que dizer um “não” direto ao deputado. Ao governador reservam-se as boas notícias, o “vou te atender naquilo ali”. Quando o não é não, quem o transmite, hoje, é Davi Diniz. É da função.

Davi é, pois, o porta-voz do não. E, neste início de governo, a julgar pelos crescentes protestos em plenário, os deputados têm ouvido bastante dele o monossílabo que mais dói em seus ouvidos.

INEVITÁVEL É, MAS...

Todo chefe da Casa Civil já assume o cargo condenado a ser o alvo certo de reclamações da base. Não podendo bater na pessoa do governo (assim manda a prudência política), os deputados canalizam suas queixas públicas para a figura do secretário. Todos que por ali já passaram, de Ciciliotti a Paulo Roberto, acabam recebendo a mesma pecha: é o cara que só escuta, mas que não resolve nada, que não tem poder de decisão.

É claro, porém, que esse grau de insatisfação com o secretário pode ser bem administrado e reduzido a depender da habilidade política e de comunicação do próprio ocupante do cargo. E, com base em recentes manifestações da base, Davi Diniz não faria mal em limpar os óculos, abrir os olhos e buscar melhorar a interlocução com a base.

Na tarde da última segunda-feira, sobre protestos em plenário na semana anterior relacionados à nomeação de superintendentes de Educação, Davi minimizou. Negou a existência de crise e de princípio de rebelião.

“O que aconteceu na semana passada foi algo pontual, que já está resolvido. Passadas as explicações aos deputados, ficou tudo de forma tranquila, cordial e harmoniosa.”

Só que, no tarde seguinte, provando que nem tudo estava "resolvido", nem tão "harmonioso assim", os protestos não só continuaram como se tornaram nominais, direcionados para a pessoa dele.

O deputado Marcos Mansur (PSDB) chegou a ser ameaçador: “Fica mais uma vez a minha palavra de insatisfação. O que foi cobrado foi consideração. Se o governo quer tocar a vida dele sozinho, não tem problema nenhum. Teremos a liberdade de fazer o nosso mandato. O PSB sozinho não tem condições de proporcionar governabilidade ao governo”.

Em novo disparo amigo contra o governo de seu partido, Sergio Majeski (PSB) assumiu o inusitado papel de porta-voz dos colegas, mesmo dizendo que nem se importa muito (?) com essa questão de convites para solenidades: “Está havendo um ruído. Acho que está faltando habilidade, não sei se da Casa Civil. Por exemplo, se o governo fez um evento em determinada região, a Casa Civil deveria ter comunicado ao deputado dessa região, porque é uma liderança forte lá. O governo precisa ter alguém com habilidade para se comunicar com os deputados sobre essas agendas. Alguém precisa melhorar essa comunicação com os deputados”.

Cada vez mais pré-candidato a prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (sem partido) subiu o tom num aparte: “Esse fato tem sido reiterado. Na obra da Leitão da Silva, por exemplo, só um foi convidado, como se só houvesse um parlamentar. A comunicação não vem. A contrapartida não existe. E ficamos sabendo pela imprensa. É lamentável. A reiteração da conduta evidencia má-fé e conduta direcionada. É reflexo do pleito eleitoral vindouro. Infelizmente o governo está conduzindo dessa forma”.

Isso porque o “pleito eleitoral vindouro” ocorrerá daqui a um ano e meio. Imaginem até lá!

Em plenário, o único que arriscou uma defesa tímida de Davi foi Luciano Machado (PV): “pequeno erro”, “uma falha ou outra, fácil de corrigir”.

Tranquilão como é do seu perfil, Davi diz se sentir confiante, seguro no cargo e prestigiado pelo governador. Afirma que não se sente pressionado pelos deputados e, realista quanto aos ônus da função de Mr. Não, espera que essa pressão sobre ele até aumente com o tempo.

"Eu me sinto tranquilo, me sinto feliz na posição que ocupo. Estou aqui para atender todos eles, para trabalhar, para ajudar os deputados nessa relação com o governo, para fazer as entregas que a população almeja.”

Veremos como Davi lidará com essa crescente pressão, nesse duelo com o gigante (e guloso) Golias formado pela soma dos deputados.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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