No dia 30 de dezembro de 2018, A GAZETA publicou a última entrevista de Renato Casagrande (PSB) antes da posse para seu segundo mandato como governador do Estado. Sobre a composição da sua equipe de governo, com muitos quadros do seu próprio partido no 1º escalão, ele respondeu: “Não podemos criminalizar um dirigente partidário. Não tenho nenhum veto a dirigente partidário e não tem nenhum veto a quem não milita nos partidos. O bom é uma composição que tenha apoio no compromisso técnico, mas com sensibilidade política.”
Haja sensibilidade política...
No 1º escalão, além de seis secretários do PSB, Casagrande nomeou dois do PPS, um do PCdoB, o presidente estadual do PV, Fabrício Machado (Meio Ambiente), e o presidente estadual do PP, Marcus Vicente (Desenvolvimento Urbano), deputado federal que não conseguiu a reeleição. Para fechar o secretariado, escolheu Junior Abreu após a desistência do deputado estadual Marcelo Santos (PDT). Abreu foi indicado diretamente pelo deputado federal Sérgio Vidigal (PDT), mas, desde 2015, está oficialmente filiado ao PSDB.
Para a Ceturb, foi escalado Raphael Trés (PSDB). Para o Instituto Jones, Luiz Paulo (PPS). Para o Detran, Givaldo Vieira, presidente estadual do PCdoB e, assim como Luiz Paulo, derrotado na eleição a deputado federal.
É claro, não se pode ter preconceito contra a presença de quadros partidários em determinado governo. Não é por pertencer a uma legenda que a pessoa não reúne os atributos necessários para exercer uma função no poder público – ao contrário, não raro os partidos, sobretudo os maiores, atraem quadros qualificados. Mas é claro também que o critério técnico não foi o único a presidir essas nomeações do governador, as quais logicamente também passaram por compromissos de campanha.
No 1º escalão, esse equilíbrio entre o componente técnico e o político até sobressai um pouco mais. Porém, quanto menor o escalão, mais predominante e visível fica o critério político. Isso tem se revelado dia a dia, à medida que as edições do Diário Oficial têm trazido as nomeações para o preenchimento de cargos de assessoria ou de chefia de órgãos menos vistosos. A lista inclui vários “políticos de carreira” e/ou dirigentes partidários.
Presidente estadual do PHS, o ex-vereador de Vitória Rogerinho Pinheiro é o novo diretor-presidente do Ipem-ES. Derrotado na eleição para a Câmara Federal, o deputado estadual Sandro Locutor, presidente estadual do PROS, será subsecretário na Casa Civil. Também deputado estadual e também malsucedido na disputa à Câmara, Gilsinho Lopes (PR) é outro que pode encontrar refúgio no governo – opção confirmada pelo próprio.
O presidente do PP em Vitória, Marcos Delmaestro, já foi nomeado assessor especial da Casa Civil. Derrotado na disputa por uma vaga na Assembleia, Júnior Bola (PSB) tornou-se assessor especial da Secretaria de Direitos Humanos. Ontem, o presidente estadual do Avante, Dejalma Merlo, virou assessor especial da de Obras. A mesma edição do Diário Oficial trouxe a nomeação do ex-prefeito de Santa Teresa Claumir Zamprogno (PSB) para ser assessor especial da Secretaria de Governo.
E não é demais lembrar que o ex-prefeito de Muqui Frei Paulão (PSB) só não se tornou subsecretário de Aquicultura e Pesca porque a imprensa “lembrou” ao governo a Lei Estadual da Ficha Limpa, que proíbe a nomeação de servidores considerados ficha-suja (caso dele, hoje).
Enfim, exemplos não faltam para provar que o governo Casagrande está superlotado de quadros do PSB e de outros partidos da extensa coligação vitoriosa do socialista. Até se poderia argumentar que todo mundo age assim, inclusive quem o antecedeu no cargo e quem, no plano federal, se elege dizendo que fará diferente. Tudo normal, tudo normal... se isso não contrariasse um pouco o discurso de campanha de Casagrande e, principalmente, o que os cidadãos esperam dos governantes hoje em dia. Seria hora de remover da “normalidade” algumas práticas que sempre foram consideradas normais e usuais na administração pública.
DEBATE: PERGUNTA
No dia 29 de agosto de 2018, durante a campanha, Casagrande foi sabatinado pela CBN. Negou qualquer pedido ou oferta de cargo em troca de apoio eleitoral de qualquer uma das 17 siglas que o apoiaram, além do próprio PSB. “Como o senhor pretende, caso eleito, reunir os interesses de 18 partidos?”, perguntou a jornalista Fernanda Queiroz.
RESPOSTA DE CASAGRANDE
“Todos se incorporaram a um projeto que eu liderei a construção. (...) Todos vieram. Ninguém me pediu nada, e eu não ofertei nada a nenhum desses partidos. Então, eu tenho liberdade total de compor um governo com perfil técnico e político, que vai formar uma equipe que vai produzir muito resultado para a sociedade capixaba”, respondeu ele.
RÉPLICA
Eu insisti: “Como o senhor pode garantir que não vai negociar cargos e espaços no governo com esses partidos?”
TRÉPLICA
“(...) A gente tem que conviver com 35 partidos. E de fato não é fácil fazer uma aliança para governador com tantos partidos e tanto diálogo que a gente precisa ter com cada partido que existe. Mas essa é a realidade. É a minha palavra. Se você perguntar a qualquer um desses partidos, você vai verificar que nenhuma oferta foi feita a eles, e nenhum pedido deles foi feito a mim. Então eu terei a liberdade completa para buscar gente desses partidos, gente de fora desses partidos, da sociedade, sem partido nenhum, para compor uma excelente equipe para me ajudar a governar e fazer este Estado voltar a crescer.”
CONCLUSÃO
Pode não ter havido “oferta” antes da vitória. Já depois... É só ver o Diário.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.