Está em marcha no Brasil um macarthismo tropical fora de época, cerca de 60 anos depois da comissão liderada pelo então senador norte-americano Joseph McCarthy. No auge da Guerra Fria, a referida comissão promoveu uma "caça às bruxas" nos Estados Unidos durante a década de 1950, perseguindo artistas e intelectuais considerados comunistas.
Alguns o eram. Muitos não. Simpatizantes ou não do comunismo, muitos tiveram a vida destruída. Sobrou até para Charles Chaplin, que foi se refugiar na Suíça, até o fim da vida.
Neste Brasil de 2018, esse arremedo extemporâneo do macarthismo tem encontrado campo fértil para se manifestar, ora com toques de ameaça, ora com toques de humor involuntário, sempre com um grande toque de surrealismo. Uma vítima recente do fenômeno – que mistura pobreza intelectual com maniqueísmo político – foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
No último dia 3, FHC declarou em Lisboa que o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), pode prejudicar a imagem do Brasil no exterior.
A resposta de Bolsonaro não tardou e veio, trumpisticamente, em seu canal preferido: o Twitter. No dia seguinte à fala do ex-presidente, o capitão reformado publicou uma foto de Fernando Henrique, refestelado em uma poltrona, a ler a obra "Prisoneiro de Estado: o diário secreto do premiê Zhao Ziyang". Sem legenda explicativa.
O livro conta a história do ex-general e secretário do Partido Comunista Chinês, deposto e preso pelo governo de seu país em 1989.
O que a foto prova? Que FHC, intelectual e bom leitor que é, percorreu as páginas do livro. Ou que, pelo menos, fez de conta que o leu. Mas Luciano Hang, talvez o mais veemente apoiador de Bolsonaro no meio empresarial, tratou de dar legenda ao que Bolsonaro só insinuou: "FHC enganou a mim e a todos os brasileiros. É um comunista", tascou ele, em um comentário ao post do Jair.
Vladimir Ilyich Ulyanov (Lenin) deve ter se revirado no mausoléu onde repousa seu corpo embalsamado, na Praça Vermelha, em Moscou. Se FHC teve algo de comunista na vida, ficou lá nos idos dos anos 1960, quando ele era professor de Sociologia da USP e foi parar no exílio.
Durante e após a sua Presidência (1995-2002), o tucano, assim como o seu partido, foi empurrado para a direita pelo PT. Opositores sempre o chamaram de "neoliberal" (também como se fosse um pecado), por, entre outras medidas, ter privatizado a Vale do Rio Doce e sancionado a lei de concessões públicas, abrindo à iniciativa privada a exploração de serviços prestados pelo Estado. Medidas típicas de um "comunista"!
FHC nem precisava, mas ainda se deu ao trabalho de replicar o post do presidente eleito e explicar que Zyiang na verdade tornou-se um crítico do regime comunista chinês. Mas e se o autor da obra não fosse um crítico do comunismo? E se o livro contasse a vida de um comunista?
Se eu leio "Mein Kampf" ("Minha Luta"), de Adolf Hitler, isso me torna um nazista? Se leio a biografia do Pelé, isso faz de mim um craque do futebol?
A propósito, em vez de banir livros, não é melhor lê-los e conhecer o pensamento de cada autor, até para poder criticá-los com fundamento?