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César Colnago admite sair do PSDB

Publicado em 24 de Fevereiro de 2019 às 17:31

Públicado em 

24 fev 2019 às 17:31
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Foram quase três décadas de mandatos praticamente sucessivos (sete, ao todo). Agora, após a derrota na eleição a deputado federal em outubro, o ex-vice-governador César Colnago retoma a vida profissional interrompida no longínquo ano de 1992, quando elegeu-se para o primeiro mandato, a vereador de Vitória. Desde sexta, está lotado na Secretaria de Estado da Saúde, sob o comando do secretário Nésio Fernandes (PCdoB) – de quem diz ter tido ótima impressão. Ou seja, Colnago, agora, é servidor do governo Casagrande. Enquanto isso, está juntando a papelada e averbando tempo para pedir aposentadoria ao IPAJM.
Se a trajetória profissional do tucano pode estar chegando ao fim, o que dizer da trajetória política? Nesta entrevista exclusiva, Colnago fala em tom de quem decidiu aposentar-se também da disputa por cargos eletivos. Tampouco pretende continuar à frente da direção estadual do PSDB. A próxima convenção estadual deve ocorrer em maio. Até lá, Colnago tem uma missão: juntar os cacos do partido e trabalhar por uma chapa de consenso.
Preocupado com os rumos nacionais do PSDB após o fiasco nas urnas em 2018, Colnago defende que o partido seja repensado, reconstruído, refundado (sim, o prefixo “re” foi muito usado). De fato, 2019 é um ano de recomeço para os tucanos (ou “renascimento”, como afirma ele). Para Colnago, em uma hipótese extrema, mas não descartada por ele, pode até significar um recomeço fora do ninho. Segundo ele, se o PSDB virar um partido de direita pelas mãos de João Doria, distante da sua essência social-democrata e de centro, ele pode até sair da agremiação que ajudou a fundar e a construir.
O que o senhor tem feito profissional e politicamente?
Eu voltei à minha atividade profissional, à minha atividade médica, após um período de férias. Estou lotado na Secretaria de Estado da Saúde, na área de planejamento. Sou servidor do Estado desde 1984. À época fui contratado pelo antigo Instituto Estadual de Saúde Pública (Iesp). Retorno para a atividade em que eu trabalhava lá atrás, antes de ter os mandatos. E estou como o presidente do PSDB. Estou conversando com todas as forças políticas do partido, principalmente a nova bancada na Assembleia e os prefeitos. Estou conduzindo o processo, organizando a sucessão das executivas municipais, para desembocar lá no início de maio com a convenção estadual. Acho que saio da atividade política de cabeça erguida. Gosto da atividade. Foram muitos anos dedicados à causa pública. Fizemos grandes contribuições desde as discussões de Vitória, depois do Estado e, depois, do parlamento. E agora como vice no governo Paulo Hartung.
Então o senhor está se aposentando da política em termos de disputa de mandatos? Ou ainda considera se candidatar a algo no futuro?
Não tenho essa visão de talvez ser candidato a algo. Evidentemente, temos que dar tempo ao tempo. Acho que está na hora de cuidarmos de uma importante tarefa partidária, que é fazer o PSDB se reencontrar com o eleitor, com a opinião pública. Acho que o partido terá que ser repensado. É algo que já disse à direção nacional. É preciso fazer o PSDB renascer.
O que significa isso?
O PSDB tem uma longa história. Eu sou da fundação do partido. É um partido que tem a concepção da social-democracia, da 3ª via, que não está nem à direita nem à esquerda, é um partido de centro. Só que, neste episódio agora da política brasileira, com os fatos acontecidos, a gente perdeu um pouco a capacidade de se colocar na contraposição principalmente ao PT, a polaridade entre PT e PSDB. E com isso acabou que o PSL, na figura do Bolsonaro, ocupou esse espaço de certa forma. E acabamos tendo 4,7% dos votos válidos na eleição presidencial. Conversei isso com o Geraldo [Alckmin, presidente nacional do PSDB] em janeiro. Eu acho que o partido precisa ser repensado, precisa fazer um novo estatuto, precisa criar mecanismos de controle de filiação no sentido de que aqueles que têm algum tipo de problema possam ser afastados enquanto acontece o julgamento. Mecanismos de compliance.
A trajetória política do PSDB passou por algumas adaptações ao longo do tempo. O partido nasce posicionado no campo de centro-esquerda, representando a social-democracia no país. Com FHC foi mais assim. Depois chega o Geraldo e o leva mais para o polo de centro-direita. E agora estamos na iminência de o governador João Doria assumir o comando do partido, dando um deslocamento ainda maior para a direita. O senhor acha que está correta essa inflexão neste momento?
Primeiro, acho que o PSDB não pode perder sua alma da social-democracia. Segundo, acho que o Doria tem todas as condições de assumir o partido. O mais importante é que o partido faça um grande congresso nacional neste primeiro semestre, reafirmando essas teses: a tese da social-democracia, as contribuições que vêm do campo humanista, no sentido de que as políticas sociais públicas têm que ser garantidas como um direito constitucional coletivo (saúde, segurança, educação e tantas outras), assim como as contribuições do liberalismo para o desenvolvimento econômico. Acho que esse equilíbrio entre valores e princípios que estão mais à esquerda ou mais à direita têm que ser mantidos como a semente essencial para que sejamos a alternativa deste país. Perdemos essa condição na última eleição, à medida que companheiros nossos foram denunciados. Isso afetou profundamente nossa imagem. É preciso rever isso. Fernando Henrique falou recentemente que, às vezes, os movimentos da sociedade, principalmente em crise, são a golpes de machado. Mas acho que temos condições de rever o partido, refundá-lo e com certeza construir aquilo que sonhamos: um país social-democrata.
Mas e se essa “essência” não for mantida e o Doria radicalizar à direita? Se o PSDB, pelas mãos do próximo presidente, acabar virando um partido de direita na linha do bolsonarismo?
Se o PSDB perder a essência, ele com certeza perde parte da sua militância, porque ele tem essa origem desde os bancos da universidade. Acho que não é isso que vai acontecer. O Doria é uma pessoa que tem sensibilidade...
Perderia militância. Perderia o senhor, inclusive?
Se o partido for um partido que perde a essência do que entendo que é fundamental para a sociedade, que são as políticas sociais e as políticas públicas para dar as condições de igualdade e dignidade para todo cidadão, eu não fico. Tá certo? Não acho que o Doria vá fazer isso. O partido, na sua essência, e no seu movimento de reconstrução e relegitimação, para se aproximar novamente da opinião pública e do eleitor, não pode perder a essência. Se fizer isso, vai se afastar. E, se perder essa essência, perde a condição de 3ª via e o seu glamour de ser um partido social-democrata que junta.
Falando em hipótese, o senhor não fica e vai para onde? Vai ajudar a fundar um novo partido?
Aí tem que repensar. Mas acho que a gente pode renascer e se refundar. Que a gente construa a nossa utopia, que é um partido social-democrata que faça o Brasil avançar, principalmente no campo social, com desenvolvimento econômico, sustentabilidade e muita ética.
E na convenção estadual, qual será sua participação nesse processo de eleição da nova executiva? O senhor descarta a reeleição?
Não coloquei meu nome para a reeleição e já comuniquei isso a todos. Estou conversando com todos. Num momento em que diminuímos de tamanho, quero contribuir para que não haja uma disputa nem dissidências e para que a gente consiga compor uma chapa única. Agora, também é legítimo qualquer militante montar uma chapa e disputar as eleições internas. Isso não significa o fim do mundo. Pelo contrário, é democracia interna.
De modo mais aberto, quem está manifestando interesse em sucedê-lo é o deputado Vandinho. O senhor tende a apoiá-lo?
Tem mais pessoas pensando em colocar candidatura, mas quem colocou mais efusivamente e está fazendo um movimento maior é ele. Se ele for o nome que vai agregar a maioria dos militantes, evidentemente podemos apoiá-lo.
Como atual presidente, qual sua opinião sobre a postura que Vandinho, seu potencial sucessor, tem manifestado na Assembleia, com uma retórica alinhada ao bolsonarismo? Se for ele o próximo presidente estadual, o que isso significará para o PSDB em termos de discurso e posicionamento?
Sempre afirmei que os partidos são nacionais. O fundamental é que reafirmemos nossos princípios e nossa essência da social-democracia e nos posicionemos a partir daí para nos recolocarmos na relação com o eleitor. Diferenças entre militantes e entre falas às vezes têm a ver com a base eleitoral ou com a origem do ator político. Essas diferenças dentro do partido a gente sempre tolerou. Agora, evidentemente, as posições nacionais e coletivas é que são determinantes.
 

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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