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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Casagrande versus Paulo Hartung: luta política renasce em um duelo de artigos

Economista afinada com ex-governador publicou artigo no "Estadão" criticando a gestão de Casagrande. Para governador, artigo foi "contratado". Braço direito do socialista rebateu com outro artigo, e deputados se mobilizaram em defesa da gestão atual

Publicado em 10/10/2019 às 07h35
O eterno cabo de guerra entre Casagrande e Hartung. Crédito: Amarildo
O eterno cabo de guerra entre Casagrande e Hartung. Crédito: Amarildo

O “gigante” despertou – ou melhor, o gigantesco conflito. A luta política entre Paulo Hartung (sem partido) e Renato Casagrande (PSB), adormecida desde o início deste ano, foi ressuscitada fortemente nos últimos dois dias, a partir de um artigo publicado no “Estadão” por uma economista afinada com o ex-governador, a ex-secretária da Fazenda de Goiás Ana Carla Abrão.

Repleto de elogios à administração de Hartung e de críticas a medidas do atual governo capixaba, o texto da articulista incomodou sensivelmente Casagrande, sua equipe e sua base; ganhou réplica no mesmo jornal (e mesmo tom) assinada por Tyago Hoffmann (PSB) e, nesta quarta-feira (9), repercutiu na sessão plenária da Assembleia Legislativa e no interior do próprio Palácio Anchieta.

A resposta mais dura partiu do próprio governador. Para Casagrande, o artigo de Abrão “foi contratado”.

Renato Casagrande (PSB)

Governador do Espírito Santo

"Um artigo contratado. De alguma maneira, [ela] foi contratada para escrever aquilo. Foi um artigo escrito a muitas mãos. Mas isso é direito dela."

Perguntei então a Casagrande: contratado por quem?

“Não sei. Aí você pode pesquisar mais”, esquivou-se o adversário de Paulo Hartung.

Não é preciso pesquisar nem mais nem menos. Por prudência, Casagrande não quis nominar o arquirrival, mas a associação entre as críticas de Abrão e a influência do ex-governador foi feita por vários aliados de Casagrande com quem conversei reservadamente. E nem seria necessário. A mesma vinculação é feita, sem meias palavras, pelo próprio Tyago Hoffmann, escalado para rebater, com outro artigo, aquele de Ana Carla Abrão.

Braço direito de Casagrande na atual administração, Hoffmann, o secretário de Governo, tem sido frequentemente enviado à linha de frente para falar em nome da equipe e do próprio governador em situações delicadas e/ou adversas. Exatamente como é essa.

Colunista do “Estado de S. Paulo”, Abrão também tem muita afinidade de pensamento com a também economista Ana Paula Vescovi, mentora do ajuste fiscal de Hartung e secretária da Fazenda deste de 2015 a 2016. A ex-chefe da Fazenda de Goiás publicou o artigo em seu espaço no diário paulista, na terça-feira (8). Resumido a uma palavra, o título não admite dúvida quanto ao tom e à dimensão da crítica: “Retrocesso”. O texto se divide em dois blocos.

No primeiro, Abrão enumera elogios ao último governo de Hartung no Espírito Santo, de 2015 a 2018. Já na segunda parte ela aponta o “retrocesso” sugerido no título, destilando críticas e alertas a uma série de medidas adotadas por Casagrande – sem citar o sucessor de Hartung – ao longo desse primeiro ano de governo, em áreas como saúde, educação e segurança pública.

Já a réplica de Hoffmann se intitula “Avanços e retrocessos”. Foi publicada no dia seguinte, também no "Estadão", mas no espaço de artigos do blog do repórter Fausto Macedo, com o mesmo número de caracteres do texto de Abrão: cerca de 4,5 mil.

FISCAL DO ZELO FISCAL: A CRÍTICA DE ABRÃO A CASÃO

No artigo que reinaugura o duelo de narrativas, Abrão volta a bater numa tecla particularmente sensível a Casagrande. Desde 2014, antes mesmo da acirrada campanha daquele ano, Hartung – com auxílio de Ana Paula Vescovi – cola no adversário o rótulo da irresponsabilidade fiscal.

Sem voltar a entrar no mérito de quem está certo ou errado, podemos dizer que a estratégia de PH deu certo em 2014 – como reconhecem, reservadamente, até conselheiros de Casagrande. A pecha pegou a tal ponto que Casagrande, desde a campanha de 2018, incorporou a seu discurso a responsabilidade fiscal como ideia fixa e como compromisso de governo nº 1. Tem sido seu principal argumento, por exemplo, para adiar o reajuste salarial tão cobrado pelo funcionalismo estadual.

Não obstante essa aparente guinada, Ana Carla Abrão arremata seu artigo voltando a pisar nessa ferida mal cicatrizada desde 2014: “Pelo visto [Casagrande e sua equipe] não entendem que a institucionalização da responsabilidade fiscal é uma ferramenta de consistência e perenidade das boas políticas de Estado”.

Não por acaso, em pronunciamento público na tarde desta quarta-feira (9), feito no maior salão do Palácio Anchieta, para uma plateia formada pela nata do empresariado capixaba, Casagrande fez questão de reafirmar seu compromisso com a responsabilidade fiscal.

“O Estado tem que continuar com aquilo que conquistou já há alguns anos. Nós conquistamos uma boa gestão fiscal. Temos anos a fio de boa gestão fiscal no Espírito Santo. Não podemos abrir mão dela.”

Ao mesmo tempo, repisou o que, desde a campanha de 2018, alega ser seu diferencial em relação ao antecessor: para ele, responsabilidade fiscal rima com investimento social, enquanto seu antecessor teria se limitado a perseguir a primeira às custas da sociedade:

Renato Casagrande (PSB)

Governador do Espírito Santo

"O nosso governo vai mostrar efetivamente que é possível fazer a boa gestão fiscal e fazer bons investimentos em infraestrutura e bons programas na área social. É preciso compreender que a gestão fiscal não é um fim em si mesmo. É um instrumento que nós temos"

Ainda no capítulo “responsabilidade”, o governador citou o Fundo Soberano, que, segundo ele, chegará a R$ 150 milhões depositados em novembro. “O Fundo está se capitalizando. Nenhum outro Estado tem isso. É uma segurança a mais para os capixabas, uma conquista para a sociedade capixaba.”

A REAÇÃO EM MASSA NA ASSEMBLEIA

Além da rebatida por escrito assinada por Hoffmann, o artigo da economista simpática a Hartung provocou fortíssima reação na sessão desta quarta-feira na Assembleia, onde foi o tema predominante. O retorno do duelo de narrativas levou uma romaria de parlamentares integrantes da base de Casagrande a subir à tribuna para discursar em defesa do atual governo.

Marcelo Santos fez discurso em defesa de governo Casagrande. Crédito: Assembleia Legislativa
Marcelo Santos fez discurso em defesa de governo Casagrande. Crédito: Assembleia Legislativa

O movimento foi liderado e iniciado pelo deputado Marcelo Santos (PDT). Cronicamente vocacionado para ser da situação, Marcelo esteve na base de todos os governos de Hartung, mas hoje é um dos mais fiéis aliados de Casagrande na Casa, onde atua como uma espécie de líder informal do governador – o líder formal, também muito ativo, é Enivaldo dos Anjos (PSD).

Marcelo foi o primeiro a fazer um desagravo ao governo da tribuna, seguido por deputados como Iriny Lopes (PT) e Freitas (PSB). No evento da tarde no Anchieta, o deputado conversou com a coluna. Disse que sua reação foi “espontânea e acompanhada por toda a Assembleia”.

Marcelo chamou o artigo de Ana Carla Abrão de “extemporâneo” e “equivocado”. Segundo ele, disputas e diferenças de gestão à parte, a alternância de governos de Hartung e de Casagrande pode ser compreendida, historicamente, como um mesmo capítulo positivo para os capixabas. Guardadas as particularidades, os dois governantes seriam partes de um mesmo momento político-administrativo, contínuo e benéfico para o Espírito Santo.

“Além de totalmente equivocado, o artigo é extemporâneo, de quem não tem informação sobre a política do Estado. São governos de ação continuada. Por mais que tenha cada um em particular o seu modelo de gestão, todos os governos [tanto de Paulo Hartung como de Casagrande] foram exitosos, mesmo atravessando essa tempestade da crise.”

Para Marcelo, o artigo representa uma tentativa deliberada de criar instabilidade política no Espírito Santo. “Acredito que sim. Talvez seja esse o motivo, inclusive, da reação de todos os deputados.”

Marcelo Santos (PDT)

Deputado estadual

"Não acredito que seja a mando de alguém. Acho que é desinformação. Talvez por [ela] ter uma avaliação positiva do modelo de gestão de Paulo Hartung, que eu também faço. Mas ninguém pode querer instituir um modelo e ser cópia para todo mundo. Não, cada um tem um modelo de gestão."

ERICK MUSSO: “PODE CONTAR COM A ASSEMBLEIA”

O presidente da Assembleia, Erick Musso (Republicanos), também saiu em defesa de Casagrande. Chamado pelo próprio governador a discursar diante dos representantes do PIB capixaba, no evento no Palácio Anchieta, Musso elogiou Casagrande e destacou: “Contra fatos não há argumentos”.

Erick Musso expressou lealdade a governador Renato Casagrande. Crédito: Assembleia Legislativa
Erick Musso expressou lealdade a governador Renato Casagrande. Crédito: Assembleia Legislativa

“Na roça dizem assim: falar até papagaio fala. Mas são nas ações, nas atitudes, nos fatos concretos, que a gente transforma a sociedade para melhor. Por isso, governador, quero parabenizá-lo pelas ações. […] Isso só é possível por conta de uma estabilização que o senhor lidera hoje e já liderou no passado.”

Citando projetos importantes do Executivo aprovados este ano na Assembleia, sob sua regência – a criação do Fundo Soberano, do Fundo de Infraestrutura, da Companhia Estadual de Gás –, o presidente do Legislativo estadual ainda jurou que estará ombro a ombro com Casagrande:

Erick Musso (Republicanos)

Presidente da Assembleia Legislativa

"Tenho orgulho de estar do lado do senhor. Orgulho de ajudar a liderar um processo de alavancar a economia, mas sobretudo com um olhar sempre altivo do ponto de vista social. E o senhor pode continuar contando com a Assembleia Legislativa."
paulo hartung renato casagrande

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