Em meio ao caos que se tornou a política na Serra e ao conflito deflagrado entre prefeito e presidente da Câmara Municipal, a sociedade civil organizada resolveu se mobilizar. Na última segunda-feira (1º), cerca de 40 entidades se uniram para fundar o Fórum Reage Serra.
A iniciativa pode ser resumida como um grito da população serrana, cansada de assistir passivamente a esse conflito paralisante estabelecido entre os Poderes constituídos do município, uma disputa que prejudica o desenvolvimento de políticas públicas e não atende ao interesse dos cidadãos.
“Nessa briga doméstica, a população da Serra fica como um joguete entre o Executivo e o Legislativo. A população não merece ficar no meio desse fogo cruzado”, desabafa Rosemberg Moraes Caitano, 54 anos, presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional.
Como representante dos conselhos municipais, Rosemberg é um dos sete coordenadores do Fórum Reage Serra, escolhidos na reunião de fundação. Há representantes, ainda, da igreja católica, das igrejas evangélicas, da Associação Comercial da Serra, da Federação das Associações de Moradores da Serra, da OAB e do empresariado local. As reuniões do Fórum ocorrerão sempre às segundas-feiras, às 9 horas, no Centro de Treinamento São Benedito, em Serra Sede, ou na sede da Associação de Moradores do bairro Caçaroca.
Segundo Rosemberg, todas as entidades e cidadãos que quiserem se juntar ao movimento serão bem-vindos. “Estamos convocando toda a população para que participe e incida nas nossas decisões.”
O coordenador explica que o Fórum Reage Serra almeja a estabilidade política e administrativa do município. Seus participantes entendem que a população tem todo o direito de ser ouvida e, acima de tudo, esclarecida sobre o que realmente está havendo na cidade. Só que isso não viria ocorrendo. A guerra entre o prefeito Audifax Barcelos (Rede) e a tropa parlamentar do presidente da Câmara, Rodrigo Caldeira (Rede), tem se dado completamente à distância dos cidadãos comuns, os quais, no fim das contas, são os maiores penalizados com a paralisia provocada por essa disputa política.
Por isso, afirma Rosemberg, o primeiro objetivo do Fórum é “a busca incessante pelo diálogo, pela verdade e pela transparência”, algo que, segundo ele, está faltando tanto por parte da Câmara como da prefeitura municipal.
“O diálogo com a sociedade não corre na mais perfeita transparência, tanto por parte da administração como do Legislativo. Precisamos que as coisas sejam postas no lugar. O Estado Democrático de Direito tem que ser respeitado para que o povo realmente possa ser reconhecido. Pensamos que a Câmara já deveria ter dialogado conosco. O prefeito nos chamou, sim, para uma conversa, mas você não pode julgar ouvindo só um lado.”
O coordenador enfatiza que o Fórum não está nem do lado do prefeito nem dos vereadores reunidos em torno de Caldeira. “Nem de um nem de outro. O Fórum quer a verdade. A gente quer lisura e transparência. A população precisa ser esclarecida.”
Ele exemplifica como a guerra declarada entre os chefes dos dois Poderes vitima antes de mais nada a própria população da cidade:
“A saúde municipal está precária. Você vai a uma Unidade de Pronto Atendimento e fica lá cinco, seis horas. Não vemos os conselhos municipais sendo respeitados em suas decisões deliberativas. A população não merece ficar no meio desse fogo cruzado sem que seja explicado para ela o que é que está acontecendo. Por exemplo, a CPI da Saúde aberta pela Câmara. Realmente a saúde da Serra não é das melhores e, se existe denúncia de desvios, os vereadores têm que fazer o papel deles: apurar, fiscalizar. Agora, eles poderiam ter feito uma audiência pública para explicar à população o que motiva a CPI. Além disso, se a questão é saúde, por que a Câmara não aprova o projeto do Executivo que permite a contratação de mais médicos?"
Ele conclui: "A população da Serra fica como um joguete entre os dois Poderes. Por isso, a prioridade do Fórum é dialogar com os dois Poderes, verificar o que está ocorrendo e evitar qualquer tipo de negociata. Queremos que as coisas aconteçam na mais absoluta transparência”.
ENTENDA A CRISE
Em março, a Câmara da Serra instaurou uma CPI para apurar denúncias de supostos desvios de recursos da saúde municipal, além de oito comissões processantes contra o prefeito Audifax Barcelos, todas a partir de uma denúncia feita por um cidadão, as quais poderiam culminar com a cassação do prefeito. Tanto a CPI como as oito comissões foram suspensas por decisão judicial.
Em uma contra-ofensiva, Audifax deu, na última terça-feira (2), coletiva de imprensa em que acusou o presidente da Câmara, Rodrigo Caldeira (Rede), de estar tentando lhe dar um golpe e de ter envolvimento direto com o crime organizado no Espírito Santo - acusações negadas por Caldeira.
O prefeito também entregou aos órgãos de controle do Estado informações que, segundo ele, corroboram suas afirmações. Temendo algum tipo de vingança, solicitou segurança pessoal ao governo do Estado. Nesta quinta-feira (4), foi a vez de Caldeira e outros vereadores de oposição pedirem escolta policial, em ofício enviado ao governador Renato Casagrande (PSB) e ao secretário estadual de segurança Pública, Roberto Sá.