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Vitor Vogas

Bolsonaro não pode temer quem pensa

Em 9 de abril, Bolsonaro disse querer "uma garotada que comece a não se interessar por política". Quantos garotos votaram nele porque se interessaram por política na escola?

Publicado em 06 de Maio de 2019 às 01:19

Públicado em 

06 mai 2019 às 01:19
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) costuma dizer que foi eleito para "libertar o Brasil" e que seu governo é defensor de “todas as liberdades”. Estranhamente, Bolsonaro tem se consolidado como um grande adversário de uma das liberdades mais caras ao ser humano: a de pensamento. O incômodo com o livre pensar aparece, por exemplo, na concepção rudimentar de educação defendida pelo presidente e no desprezo declarado de seu governo por cursos clássicos da área de Humanidades, manifestamente os de Filosofia e Sociologia.
Em tuitada publicada no dia 26 de abril, Bolsonaro registrou sua definição sobre a educação pública: "A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta, e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta".
É uma definição limitada, estritamente funcional. Um aluno é ensinado a ler, escrever e efetuar as operações elementares nos primeiros anos do ensino fundamental. Depois, vai aprender um ofício só lá no ensino superior, ou pouco antes, em um curso técnico profissionalizante.
Educação é isso? Claro que sim. Mas é só isso? Óbvio que não. Se assim fosse, de que valeriam todas as séries dos ensinos fundamental e médio, com todas as suas diversificadas disciplinas?
Levando ao pé da letra a definição bolsonarista sobre a "função da educação", todos esses anos de estudos poderiam perfeitamente ser suprimidos. Após colher seus rudimentos de educação, o garoto poderia se dedicar a anos de ócio até ingressar em algum curso técnico no fim da adolescência. Ou abandonar a escola enquanto se torna aprendiz de algum tipo de ofício, como nas antigas oficinas da era pré-Revolução Industrial (as guildas ou corporações de ofício). É uma concepção pré-moderna, pré-iluminista; uma visão tecnicista e utilitária, de alguém que concebe a educação tão somente como um instrumento para formação de mão de obra. É isso? Sim, também é isso. Mas vai muito além.
Em ato de pré-campanha em Vitória, no dia 31 de julho, Bolsonaro já havia indicado sua visão: "Vamos formar pessoas aptas ao trabalho, e não formar militantes e pessoas que apenas têm senso crítico. No mercado, ninguém quer saber quem tem senso crítico". Novamente, Bolsonaro está errado. "Ninguém" neste caso é o governo.
Dessa ideia equivocada de que "ninguém quer saber quem tem senso crítico", decorre o desprestígio do atual governo às ciências humanas. Mais que qualquer outra disciplina, são elas que ajudam a expandir o pensamento do aluno. Em aulas de Filosofia e Sociologia, o jovem é estimulado a "pensar fora da caixa", a refletir criticamente sobre a realidade em que se insere em vez de apenas aceitá-la como uma construção dada e acabada na qual ele não pode intervir. São cursos em que o jovem aprende a pensar: sobre o mundo, sobre o país, sobre sua comunidade, sobre o próprio pensar.
Para Bolsonaro, no entanto, o MEC deve cortar investimentos nessas faculdades, pois elas "não geram retorno imediato ao contribuinte" (de novo, a visão utilitarista salta das palavras dele). O que não está escrito, mas se infere das peremptórias linhas, é que tais faculdades para nada serviriam no entender do nosso presidente, daí o anunciado corte de verbas públicas.
Como citou o colunista Merval Pereira no último dia 3, o professor Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, mandou uma carta a Bolsonaro, protestando contra a decisão. Ele começa lembrando, em contraposição ao argumento da "falta de retorno", que o Estado precisa "formar profissionais preparados para os desafios de um mundo em que as profissões tradicionais têm dado lugar a outras inexistentes no século passado". Esse rápido desenvolvimento exige “conhecimento amplo não só de seus campos estritamente profissionais, mas também do país e da sociedade onde atuarão".
"Saber pensar", conclui Davidovich, é condição necessária para a construção de uma sociedade ilustrada, democrática e, sim, economicamente desenvolvida. Acrescentamos: os jovens que "sabem pensar" e que "pensam fora da caixa" são justamente aqueles que o mercado busca para as melhores vagas de trabalho. O mercado, na verdade, sabe a importância do senso crítico. O governo, não.
Durante a ditadura militar, sociólogos foram defenestrados da cátedra, perseguidos, exilados. Cursos de Filosofia foram fechados. Governos autocráticos não gostam de jovens que raciocinam demais, muito menos de cursos que os estimulem a pensar criticamente. É normal.
Podem começar a questionar a ordem estabelecida. E a ditadores não interessam jovens questionando a ordem. Mas por que um governo democrático se incomoda com isso? Por que isso haveria de inquietar um presidente democrata?!?

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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