Como de costume, toda noite cultivo o hábito de assistir ao jornal de TV. É raro quando vou dormir sem fazer isso. Gosto desse modelo de notícia que transcende a escrita, ali temos uma imagem que também fala. Gosto dos jornais que têm analistas, que discutem, que divergem, que lançam luzes para as brechas que às vezes não vemos, ou o contrário, lançam luzes para o que vemos, mas, no reflexo, enxergamos os vãos (brechas) invisíveis.
Quase sempre, sobretudo, quando se especulam cenários eleitorais ou repercutem falas de governo, é muito comum que analistas comecem suas análises a partir daquilo que ouviu do mercado, dos empresários, para sentir o peso da repercussão. Quando candidatos começam a ensaiar uma mudança legislativa ou ainda pleitear uma vaga no Planalto, o movimento é o mesmo: escutar o mercado, escutar banqueiros, escutar economistas.
Mas, por outro lado, estamos quase que costumeiramente vendo matérias a narrar a caótica desigualdade social, o drama da fome, da miséria, do desemprego, da morte, da ingerência, da promiscuidade. Nessa mesma linha brotam-se os jargões, slogans e fotografias políticas: estamos aqui para fazer para todos; estamos aqui para representar a todos. Será que pode haver representação e mudança quando se empresta o ouvido para escutar apenas a bolsa? E a base? Parece indecência! Parece incoerente querer mudar as bases apenas escutando a bolsa (de valores).
Hoje, temos no Brasil uma população de miseráveis sem bolsa e sem bolso, sem nada no estômago. Segundo o relatório da Oxfam, o número de pessoas vivendo em situação de fome estrutural aumentou cinco vezes desde o início da pandemia, chegando a mais de 520 mil. E mais 20 milhões de pessoas foram empurradas em 2021 a níveis extremos de insegurança alimentar.
Enquanto tivermos governos que governem pela Bolsa de Valores, teremos pobres e necessitados nas bases a carecer do mínimo. Precisamos de quem olhe menos a bolsa e mais o bolso dos que padecem ao drama de uma inflação que empobrece e indignifica o humano. Não dá para fazer política apenas escutando acionistas (ou seja, fazendo o que o “mercado” endinheirando almeja em nome do lucro) e usando das bases carentes como massa de manobra e cabresto eleitoral.
Analistas ou candidatos, é preciso começar a mudar a política (mesmo que esse não seja o jogo) usando os olhares e os ouvidos. Usando a sensibilidade de quem deseja propor uma economia a serviço da dignidade, do bem-estar, da prosperidade de todos, que estejam na bolsa ou fora delas. Economia é o agrupamento de atividades executadas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida, não é exclusividade de alguns. Se as bolsas importam, as bases também.