No centro da Ilha de Vitória existe um lugar que emana potência e respira o viver, mesmo enfrentando todo tipo de preconceito social, racismo estrutural e criminalização sistêmica.
Uma região nascida há 17 anos, a partir da união de lideranças comunitárias dos bairros Penha, Bonfim, São Benedito, Consolação, Gurigica, Itararé e comunidades do Jaburu, Engenharia e Floresta, com o objetivo de criar uma identidade para a região onde moravam, para transformar um local marcado pela referência de violência. Após discussão e debates, da forma mais genuína que a democracia participativa já previu, batizaram a região como Território do Bem.
A ideia, a bem da verdade, foi uma estratégia inteligente e sábia de fazer frente aos estereótipos criados por uma sociedade e estado que permanecem vinculados e defendentes do legado da construção de um país que reproduz violações históricas, atualizando o sofrimento de pessoas.
Sublimar as potências e vivências de um território é a pedra de toque para denunciar todo tipo de criminalização que o povo pobre, preto e periférico suporta, em uma reprodução de desigualdade e violação de princípios constitucionais, por meio de uma narrativa pífia, superficial e hipócrita de legalidade.
O território que fica no centro da Ilha de Vitorinha é reduto de personalidades históricas, ambiente de uma juventude potente e berço de valorosos coletivos, entidades e projetos imprescindíveis na luta pela efetivação de direitos fundamentais e realização dos direitos humanos.
Um militante histórico de direitos humanos, Ademir Torres diz que “o mundo precisa de gente que ama o que faz”. No Território do Bem essa gente brota. Talvez seja por isso que incomode tanto. Lá não há “cidadão de bem”, enquanto categoria nova e nefasta que representa aquele que se coloca em um patamar superior àqueles que são diferentes de si. Lá existe cidadã e cidadão no strictu sensu constitucional, também conhecido por sujeitos de direitos.
A cada dia que conheço mais o Território do Bem, eu me encanto com suas riquezas e potencialidades que avançam mesmo quando tantos querem sua destruição, remeto-me ao professor português José Pedro Machado, ao procurar o sentido moderno para a palavra cidadão, de acordo com o Dicionário Etimológico. Segundo ele, as origens prováveis estariam na França. Teria sido em outubro de 1774, quando Pierre-Augustin Beaumarchais, em “O Barbeiro de Sevilha”, usou a palavra “cidadão” num contexto de litígio, após ter sido processado por um conselheiro de Paris.
Terá dito Beaumarchais: “Eu sou um cidadão; não sou nem um banqueiro, nem um abade, nem um cortesão, nem um favorito, nada daquilo que se chama uma potência; eu sou um cidadão, isto é, alguma coisa de novo, alguma coisa de imprevisto e de desconhecido em França; eu sou um cidadão, quer dizer, aquilo que já deveis ser há duzentos anos e que sereis dentro de vinte talvez! ”
Beaumarchais não se enganou. Em 1791, a Constituição nascida da Revolução Francesa (1789-1799) deu o qualificativo de cidadão a TODO e QUALQUER membro do Estado, substituindo o anterior tratamento de senhor e senhora. E a Marselhesa, hino composto nos fervores revolucionários, em 1792, registou o “Aux armes, citoyens”, que em tradução livre para o português quer dizer: às armas, cidadãos. Que ainda hoje se mantém, apesar das muitas resistências de um sistema que insiste em não avançar enquanto humanidade, tentando perpetuar a desigualdade, opressão e dor de muitos para manutenção do status quo de poucos.
O Território do Bem, às vésperas de completar a maioridade, resiste e persiste na luta ciente de que não há nada que possa conter a força que emana da dignidade da pessoa humana, e lançando mão das armas da democracia, cooperativismo, coletividade, diálogo e parceria.