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Política

Situação da Venezuela ilustra a relação entre poder, amor e medo

Esse tipo de equação maquiavélica coloca o medo como alternativa ao amor. Na impossibilidade do amor, o medo é o que garante o poder

Publicado em 19 de Agosto de 2024 às 02:25

Públicado em 

19 ago 2024 às 02:25
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
Em 28 de julho ocorreu eleição para escolher o presidente, para cumprir um mandato de seis anos na Venezuela. A eleição foi marcada por tensões e controvérsias, dentro de um contexto de governo que utiliza o poder bélico para reprimir a oposição política e se perpetuar no comando. Concorrendo ao terceiro mandato consecutivo, o atual presidente atua de forma franca contrária à democracia.
As pesquisas realizadas antes da eleição apontavam o candidato da oposição como vencedor, em ampla margem. No entanto, após o Conselho Nacional Eleitoral, que é controlado pelo governo, anunciar resultado parcial dando vitória ao atual presidente, mas sem divulgação da documentação que sustentaria tal anúncio, os maiores líderes e organizações mundiais expressaram predominantemente ceticismo quanto aos resultados divulgados, e não reconheceram as alegações do CNE.
Como consequência, protestos irrompidos no país levaram o governo atual a recrudescer a repressão, com prisões, perseguições e censura à imprensa local e internacional.
Protestos na venezuela
Protestos na venezuela Crédito: REUTERS/Samir Aponte
Desde os anos 1990, a Venezuela vivencia uma regressão democrática, com tendência de crescente autoritarismo. Steven Levitsky, cientista político, em análise sobre esse movimento, considerou que nos anos entre 2004 e 2016, um período em que o governo abusou do poder e violou direitos fundamentais, de tal forma que desequilibrou o jogo democrático, se aproximando de uma ditatura em grande escala, quando não permite que partidos políticos de oposição  participem de eleições, sendo estas não consideradas livres e justas pelos observadores internacionais.
Quando há a ameaça de um regime totalitário se instalar no poder de um país, de direita ou de esquerda, os países que têm compromisso com a Declaração Universal de Direitos Humanos reagem e não toleram; a democracia e a liberdade das pessoas ficam assim protegidas.
O caso da Venezuela ilustra com precisão a relação entre poder, amor e medo. Maquiavel, em sua ideia básica para a sobrevivência política do príncipe, nos traz que quando não se consegue ser amado, o príncipe, ou em uma expressão muito próxima, o “dono do poder”, deve se fazer temido.
Esse tipo de equação maquiavélica coloca o medo como alternativa ao amor. Na impossibilidade do amor, o medo é o que garante o poder. Seres predatórios, incluindo no campo político, manipulam o amor ou o medo. No caso da política, o medo é a impotência do amor. A impotência, até por sua força de inércia, pode ser mais forte do que a potência.
A democracia não se curva ao medo e não suporta a inércia, por isso tão ameaçadora aos que querem governar por meio do terror e das armas, não sabendo conviver com a ideia de que direitos são para todas as pessoas, incluindo aqueles que pensam diferente.
A intolerância aos regimes totalitários precisa ecoar gritos uníssonos pela liberdade, pois somente assim é reforçada a rede de proteção à democracia.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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