O machismo é uma das marcas mais presentes na estrutura da sociedade brasileira, e por isso muito difícil de enfrentar, mesmo em pleno 2022. Um fenômeno comportamental que faz parte do nosso cotidiano e sem sutiliza nenhuma fere as mulheres a cada instante, diante da recusa a igualdade de direitos e deveres entres homens e mulheres, sempre elevando o macho e reduzindo a fêmea.
O sistema hierárquico de gêneros que coloca o homem em posição superior e forte em detrimento a mulher está arraigado nas raízes culturais e sociais desde o início da humanidade, se espraiando pelos sistemas econômicos, sociais, clericais, políticos e familiares, configurando-se como um regime misógino onde a figura masculina é o alfa.
Resta à mulher o papel de coadjuvante e enfeite, em um estado de submissão absurda e violadora que caracteriza uma sociedade patriarcal. A convenção do que é feminino e masculino ocupa as profissões, expressões, comportamentos e emoções, atende o ideal machista, anulando a essência da dignidade da pessoa humana criando estereótipos e rótulos que consistem no caminho pavimentado para o preconceito, redução de direitos e naturalizações.
Gestos, atitudes, falas, conduta e justificativas machistas e misóginas compõe um repertório em nossas relações familiares, institucionais, de trabalho e afetivas, quase sempre com o introito: “não querendo ser machista”. Mas já sendo.
Frases como “Tem que aprender a cozinhar para casar. Se não se cuidar não vai arrumar namorado. Homem não gosta de mulher que bebe. Homem não gosta de roupas curtas e maquiagem forte. Você é muito mandona, afasta os homens. Homem não gosta de cabelo curto. Você só pensa em trabalho, não vai casar? Homem não gosta de mulher fácil. Nessa idade e não casou ainda? Mulher tem que casar para se realizar. Tenho um amigo para te apresentar. Onde está a mãe dessa criança? Deixa que eu pago a conta. Mulheres estão praticamente integradas à sociedade. Elas têm o prazer de escolher a cor das unhas e dos sapatos. Elas são fáceis porque são pobres” são propagadas todos os dias por homens, e por mulheres também, infelizmente, compondo a narrativa machista que reforça uma condição de submissão dessas últimas.
Nas últimas semanas foram repercutidas pela mídia e redes sociais falas de integrantes dos Três Poderes, algumas delas acima relatadas, que compõem esse repertório misógino e de sedimentação do machismo. Diante da repercussão, alguns tentaram explicar, ficando a emenda pior que o soneto. Outros recuaram e apresentaram as mais pífias justificativas, demonstrando que somente conseguiremos, aquelas que realmente compreendem, enfrentar um fenômeno tão deletério a partir da exposição e constrangimento.
Vale lembrar que, necessariamente, ser feminista é ser anticapitalista, antirracista e anti-imperialista, numa luta que precisa de momentos de movimentos em massa e ocupação dos espaços públicos, mas prescinde de um trabalho que requer um processo cotidiano de romper as barreiras que estão ao nosso entorno na vida privada.
As frases acima mencionadas são ditas pelos nossos pais, maridos, companheiros, namorados, filhos, avós, amigos, chefes, colegas de trabalho e também por muitas mulheres. Não falar essas frases e refutá-las é dever de todas nós, sem nenhum medo ou constrangimento de causar melindres naqueles que as propagam. O que temos que fazer, no exato momento em que são ditas, num plenário ou no almoço de domingo, é repeti-las perante a pessoa e fazer o enfrentamento, como ato de resistência e convite à reflexão de que o machismo em uma sociedade patriarcal existe por meio de ações humanas.