No final do mês passado, a primeira-ministra da Finlândia foi criticada por ingerir bebida alcoólica e dançar durante uma festa particular. Na mesma semana, durante o debate presidencial aqui no Brasil, realizado no dia 28, duas candidatas e uma jornalista foram, flagrantemente, desrespeitadas por um dos candidatos que estava debatendo.
Os dois episódios são exemplos de muitos casos que acontecem diariamente em nossa sociedade mundial, machista e brancocêntrica, em que feridas da violência patriarcal ainda sangram corpos e almas das mulheres, nos remetendo a uma reflexão ontológica, no sentido de que como que mulheres que alcançam um patamar, que até então era reservado aos homens brancos, são violentadas, por meio de práticas violadoras que, na maioria das vezes, ainda contam com justificativas morais e conservadoras.
Podemos compreender, para além de ser um ato de violência, como um fenômeno bem delineado por Angela Davis, no sentido de que quando uma mulher se movimenta, toda a estrutura da sociedade de movimenta com ela.
É indiscutível que a luta travada pelas mulheres pela igualdade de gênero se espraiou por todos os quadrantes da sociedade, e provocou transformações não somente no que concerne à conquista de novos direitos, à construção de equipamentos específicos e à implementação de políticas públicas voltadas para a atenção da família, mas principalmente pelo espaço de luta que foi conquistado.
Exímias tecelãs do cuidado, as mulheres são excepcionais na vida pública sem abdicar do protagonismo do cuidado e afeto, quebrando o paradigma da submissão subserviente e consolidando o lugar de luta e emancipação. Possuem capacidade, indescritível, de fazer habitar em si o sangue frio e o coração quente, que se revelam elementos essenciais para enfrentar incertezas, lutos e sofrimentos.
A forma de fazer isso é se manifestando e não apoiando esse tipo de pessoas que se incomodam pelo simples fato de ver o espaço que antes era privativo ser dividido, em condições de igualdade com toda a qualquer mulher que queira ali estar.
Os movimentos de mulheres que buscam o alcance da independência feminina, por meio de reinvindicações da garantia de uma estrutura que possibilite que possa ocupar a esfera pública, incomodam a um sistema que antes tinha na mulher aquela que cuidava de uma estrutura particular e doméstica, possibilitando que os homens de uma família pudessem sair de casa para a esfera pública para estudar, trabalhar, divertir-se e atuar politicamente.
O quantitativo de mulheres que ainda abrem mão de conquistas para que os homens ao seu entorno possam ter garantida uma retaguarda para uma vida pública ainda é significativo, e muitas das vezes são revestidas de justificativas que são fruto de um construto social e econômico que reforça a estrutura social machista.
É preciso atentar que autonomia e independência feminina são a raiz dos ataques misóginos sofridos por mulheres que ocupam espaços públicos e de poder, e por isso incomodam, pois provocam a movimentação de uma estrutura social e política que se encontrava acomodada sob os ombros cansados de mulheres que são nossas avós, mães e tias. Façamos diferente. Por elas, por nós e pelas que virão.