“E, numa tarde, lançou uma observação que me abalou muito. Disse: ‘Se não há amor, não só a vida das pessoas se torna árida, mas também a das cidades’. Não lembro como se expressou exatamente, mas a noção era essa, e eu a associei às nossas ruas sujas, aos jardins descuidados, ao campo arrasado por prédios novos, à violência em cada casa, em cada família.”
“A amiga genial”, Elena Ferrante
A empatia é uma qualidade humana, mas que não deveria ser praticada apenas entre as pessoas, e sim em tudo o que existe no nosso universo, incluindo aí os animais, as plantas, a natureza em geral e, claro, as cidades. E, pelo que temos visto ultimamente, tem faltado muita empatia por aí. E até mesmo entre as pessoas, os vizinhos...
Casos recentes de brigas entre vizinhos que moram num mesmo condomínio, e que acabaram sendo noticiados, traz à tona o nível de acirramento entre grupos socio-comunitários que, a princípio, se assemelham ao nível econômico, social e cultural e, portanto, nem sequer deveriam ter pontos divergentes. Quer dizer, ninguém precisa concordar com tudo. As divergências fazem parte da vida, a questão é como lidar com elas.
O problema é que, aparentemente, todo mundo decidiu dar um “dane-se” tanto para as pessoas, quanto para o mundo.
No caso do espaço público urbano, existe a ideia de que ele não é de ninguém, não nos pertence e, desse modo, não precisamos tomar conta dele. É um espaço descartável e onde se descartam coisas que não se quer mais.
Na verdade, deveria ser o contrário, um lugar que é de todos nós. Mas não é o que tem sido visto.
E, no caso da falta de empatia, cabe dizer que é um fenômeno que tem se tornado ubíquo, sem escolher faixas de renda. Se nos bairros mais ricos isso é recorrente, por exemplo, no trânsito, nas regiões mais pobres o que se vê é o descuido com as ruas, onde se joga aquilo que um dia já nos pertenceu e agora já não se deseja, despojando-o.
O fato é que, ao andar pela cidade, é cada vez mais comum vermos pontos de lixo viciado. O descarte irregular de lixo demonstra como as pessoas têm pouco apreço pelo lugar em que vivem. Boa parte dos resíduos jogados na rua são de entulhos de obras, móveis e eletrodomésticos velhos. Ou seja, as pessoas gastam dinheiro fazendo obras ou trocando o mobiliário ou equipamentos das suas casas, visando melhorar a moradia, mas não querem gastar com caçamba ou levando seus despojos aos locais devidamente indicados pelas municipalidades.
Enquanto isso, as administrações municipais ficam numa “sinuca de bico”. A coleta de lixo domiciliar é um serviço público e, além disso, muitas prefeituras possuem o sistema de recolhimento sob demanda de mobiliário e equipamentos descartados, tudo para evitar que as ruas sejam o lugar da sujeira.
Ainda assim, o cidadão faz o que lhe parece mais fácil: jogar na rua. Mas é claro que ele não joga na frente da sua própria casa, pois ali ficaria sujo, feio e até fedendo. Então ele simplesmente prefere levar o lixo para um pouco mais longe. Talvez na frente da casa de um vizinho que ele não goste ou que torce para um time de futebol que não é o dele.
As prefeituras, claro, informam que o descarte irregular de lixo é passível de multa, mas isso é algo que nem sempre é fácil de fiscalizar. E, como tampouco dá pra deixar aquele lixo que vai se acumulando lá, elas, ao limparem o lugar, acabam provocando um círculo vicioso, pois o povo logo volta a encher o local com descartes.
Já o cidadão abastado, até porque perto de onde ele mora não tem nenhuma área abandonada para ele “distraidamente” deixar seus resíduos, não possui tal costume. Mas se tem algo recorrente é ele “distraidamente” estacionar seu veículo numa vaga exclusiva para PCD (pessoa com deficiência) ou idosos.
E quando alguém lhe chama a atenção, a resposta é que “não vai demorar muito” ou que não tinha notado a sinalização, ou seja, parou ali por distração...
Não há fiscalização que dê conta de patrulhar toda a cidade, afinal ela não é onipresente e tampouco onisciente. E o desejável é mesmo que cada uma saiba como agir corretamente tanto com os demais quanto com sua cidade.
Pelo menos de uma coisa eu tenho certeza, um dia todos serão idosos, e quando isso chegar aquele motorista desrespeitoso talvez se lembre de como a empatia é algo necessário ao bom viver.