Carros poluem, carros atropelam, carros fazem ruídos, carros matam... Mas os carros foram inventados pelo homem para facilitar sua vida, permitindo deslocamentos mais rápidos e mais longos. Foi de fato uma facilidade na vida humana, uma revolução!
Até o surgimento do automóvel e da enorme expansão na quantidade de veículos em circulação nas cidades, boa parte delas tinha nos veículos com tração animal, normalmente cavalos, a forma usual de locomoção das pessoas que precisavam se deslocar de casa para o trabalho diariamente, mas também para o transporte de mercadorias, de um porto, por exemplo, para um armazém e dali para os diversos pontos comerciais espalhados por ruas e bairros.
Em função das necessidades fisiológicas dos animais, as ruas eram bastante sujas e fedidas, atraindo moscas que, por sua vez, espalhavam doenças pela cidade. Em dias de chuvas, porém, a situação piorava, pois as fezes dos animais acabavam se espalhando pela cidade de modo mais descontrolado ainda.
Mas também havia acidentes envolvendo bondes ou carruagens puxadas a cavalo, em função da própria natureza do animal ou por erro humano do condutor ou distração de um pedestre caminhando pela rua. Ou seja, bondes e carruagens poluíam, atropelavam, faziam ruídos e também matavam...
E aí veio o automóvel e o homem achou que estava tudo resolvido.
Talvez o maior problema da relação homem x cidade x automóvel tenha sido a ênfase dada aos veículos automotores no espaço urbano. Já no início do século XX, urbanistas defendiam a ideia de grandes avenidas exclusivas à circulação de carros como modelo capaz de dar conta dos desafios da modernização. Privilegiou-se o automóvel, colocando o homem como algo menos importante na dinâmica urbana, que tem Brasília como seu exemplo maior.
Não é fácil ser pedestre hoje em dia, principalmente quando pensamos nas médias e grandes cidades brasileiras. E pior ainda para um pedestre que empurra um carrinho de bebê ou para quem possui alguma deficiência motora.
E a prerrogativa dada ao automóvel no Brasil é tão evidente que, por lei, a faixa da rua para circulação de veículos automotivos, cujo pavimento mais comum é o asfalto, é de obrigação das prefeituras, que é quem realmente executa e mantém a integridade do piso; ao passo que nas calçadas - das mesmas ruas por onde circulam os carros, e que também são espaços públicos - a execução e a manutenção do piso são de responsabilidade dos proprietários dos lotes lindeiros.
A sinalização semafórica, em geral, privilegia a circulação dos veículos em detrimento do tempo de travessia das vias pelos pedestres. Nesse caso, é bom estar em boa forma física para poder atravessar as ruas com rapidez...
E eis que agora veio a era dos patinetes e bicicletas compartilhados, como solução complementar para dar conta do caos que é a mobilidade urbana atual. Uma nova revolução, mas que também já começa a mostrar que problemas surgem em decorrência de qualquer modal, seja em veículos por tração animal, seja em veículos por motores à combustão. Em todas as cidades nas quais patinetes e bicicletas compartilhados começaram a ser usados foram registrados acidentes, alguns mais graves, como foi o caso da jovem morta em Paris nesta semana.
O fato é que a mobilidade deve ser cada vez mais multimodal, ou seja, deve prever todos os tipos de deslocamento: a pé, de bicicleta, em transporte público (seja de ônibus, metrô, trem ou aquaviário) e até mesmo com carros, cuja etapa atual de inovação prevê veículos elétricos (menos poluentes e mais silenciosos), autônomos (mais seguros) e compartilhados (demandando uma frota urbana reduzida).
E aí, antes de terminar, é importante ter em mente dois paradoxos do carro na atualidade: considerando o tamanho da frota atual nas cidades, o automóvel não traz velocidade, pois vivemos engarrafados; e, em geral, estar num carro dá ideia de segurança às pessoas, mas, considerando o número de acidentes, furtos e roubos, qualquer lugar é mais seguro do que em um carro.