No último dia 1º de julho o Datafolha divulgou uma interessante pesquisa em que avaliava a percepção dos brasileiros sobre as mudanças climáticas. O principal resultado dessa pesquisa mostra que 52%, ou seja, mais da metade dos brasileiros consideram que as mudanças climáticas são um “risco imediato para a população do planeta”.
Outra pesquisa, divulgada em 30 de junho de 2024, vai nessa mesma direção. A preocupação dos brasileiros com as mudanças climáticas atingiu neste mês o maior nível da série histórica da pesquisa “What Worries the World”, realizada mensalmente pelo instituto Ipsos desde 2016. Segundo o levantamento mais recente, 19% da população cita o tema como uma das principais preocupações atuais do país, taxa que era de 8% em maio. As enchentes no Rio Grande do Sul e as queimadas no Pantanal são apontados como os grandes influenciadores desse resultado.
A leitura que eu faço dessas pesquisas é que: (i) a imprensa e os cientistas precisam continuar divulgando os riscos que todos nós corremos com as mudanças climáticas; (ii) elas dizem muito sobre nós, brasileiros, que geralmente só damos a devida atenção a um tema relevante após o “leite derramar”.
No caso específico das mudanças climáticas, esperar o pior acontecer para tomar providências não é viável, dado que isso pode levar a um ponto de irreversibilidade da situação, mas é compreensível, visto que o os brasileiros ainda têm questões mais preocupantes para o seu dia a dia (segundo a mesma pesquisa da Ipsos citada antes), como crime e violência, saúde, pobreza e desigualdade social, corrupção, educação, inflação, desemprego e impostos, nesta ordem.
Não por acaso, a economista francesa e vencedora do Prêmio de Economia de 2019, Esther Duflo, afirmou em recente visita ao Brasil que “a mitigação climática avançará com a redução das desigualdades”. Os dados apresentados por ela mostram como as pessoas mais pobres são as que mais sofrem com as mudanças climáticas.
E quanto aos capixabas, como está a nossa percepção sobre os riscos climáticos? Infelizmente ainda não temos nenhuma pesquisa em nível estadual que apresente dados sobre como nós percebemos essa importante questão. Mesmo assim, alguns fatos me levam a crer que uma fatia relevante da população considera que as mudanças climáticas são um “risco imediato para a população do planeta”.
Um estudo inédito realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que o Espírito Santo é o Estado do Brasil com maior impacto na frequência dos eventos extremos de temperatura do ar na costa do país. Nos últimos 40 anos, o ES quase triplicou (188%) a frequência das ondas de calor. Para quem já esqueceu, em março desse ano tivemos uma grave enchente na região Sul capixaba e entre 2015 e 2016 a região Noroeste passou por uma severa crise hídrica. A notícia ruim é que existe uma tendência de os eventos climáticos extremos aumentarem sua frequência. E a boa notícia é que o governo estadual já vem adotando medidas para evitar tragédias e para mitigação dos efeitos da mudança climática.
Além disso, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, lidera o Consórcio Brasil Verde, uma iniciativa da coalizão Governadores pelo Clima e articulada pelo Centro Brasil no Clima (CBC). O consórcio visa colaborar com o mundo e com o Brasil na busca das metas do Acordo de Paris e conta com 24 UFs.
Todos esses fatos são fortes indícios de que a sociedade capixaba tem elevada preocupação com as mudanças climáticas. Mas, se você, leitor(a), ainda não se conscientizou sobre os efeitos das mudanças climáticas, aqui vai uma dica gratuita. O professor Neyval Costa Reis Júnior, da equipe do Instituto de Estudos Climáticos da Ufes, organizou, juntamente com o cientista Carlos Nobre (talvez a maior referência no tema mudança climática no Brasil) e outros pesquisadores, um livro sobre os efeitos das mudanças climáticas no Espírito Santo. A leitura vale muito a pena e o livro pode ser encontrado gratuitamente aqui.
Por fim, um alerta. Talvez mais do que qualquer outro tema, o enfrentamento da mudança climática requer uma governança com direitos e deveres bem definidos entre governos, setor produtivo e sociedade. Esses três atores precisam atuar em conjunto para a solução do problema.