Vivemos mais uma vez no país uma época essencialmente trágica. Deixa eu me explicar, tia Cecy. Imagine uma Rosa dos Ventos em que todos os pontos, inclusive o do eixo central, sejam indefinidos. Como se alguém, digamos, alertasse um pintor de paredes: “Te segura no pincel que eu vou tirar a escada”. Só palavras, nada é real. As mudanças obedecem ordens de todos os lugares e de todo mundo, isto é, de nada e de ninguém. Não há ordem a ser seguida porque o caos tupiniquim não tem qualquer direção.
Os poderes não se organizam sequer entre si. São a casta. Quanto ao povo, que povo? Mostre-me um cidadão. Ex-presidentes da República na cadeia por roubo e o atual age com uma ingenuidade e insegurança que dão medo. Está quase na hora daquelas dondocas igualmente sem rumo, com seus melhores vestidos, saírem às ruas batendo de levinho nas pratarias, protestando contra o preço do caviar preto. E o do esturjão está pela hora da morte. Aliás, a diária do Waldorf Astoria está um horror. Não tem corrupção que resista.
Hoje, na TV, um vereador que colocamos lá, sem ter a menor ideia do que estava fazendo, queria que nós, o povo, fornecêssemos dados pessoais para os sistemas de aplicativos. Uma modalidade cabocla do Imposto de Renda. Você vai contar para todo mundo tintim por tintim da sua existência.
Enquanto altas autoridades discutem, recebendo salários imensos, o quanto o governo vai arrancar dos parcos ganhos da classe média para baixo, um médico, com 38 anos de profissão, recebe ao se aposentar cerca de R$ 5 mil. E expõe-se a riscos diários. Quem quiser ver, vá a um posto de saúde sem a menor condição de atender – e há muitos – e veja com seus olhos o trabalho desses profissionais que estão lutando nesta guerra noite e dia. Digamos que mereceriam reconhecimento digno.
E minha querida, de um jeito ou de outro, sempre foi assim. O Brasil respira impunidade e injustiça. Não existe por aqui direita nem esquerda, mas os de cima e os de baixo.
Na falta de um caminho vamos nos distraindo, apagando fogueirinhas e, principalmente, discutindo o verdadeiro sexo dos anjos e outras alucinações. Produzindo cenas de cinema sem qualidade, com a Corte viajando para não fazer nada aos Estados Unidos, por exemplo. Enquanto isso, as universidades tremulam, os assassinos morrem de medo da população armada, os bêbados equilibristas do trânsito comemoram o avanço do atraso no controle. Uma zorra.
Ponho-me a ouvir a 5ª Sinfonia de Beethoven. Ele morreu, Freud morreu, Nara morreu...
E eu também não estou me sentindo muito bem.