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Paulo Bonates

Não há um único jogador de futebol no Brasil que mereça minha torcida

Não vou assistir jogadores no Brasil e presenciar a engorda de futuros craques para torná-los milionários

Publicado em 20 de Maio de 2019 às 22:26

Públicado em 

20 mai 2019 às 22:26
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Futebol Crédito: Divulgação
Assistindo à película “Minha Obra-Prima”, dirigida por Gastón Duprat, uma relíquia de inteligência e humor do cinema argentino, fixei-me em uma definição de futebol dada pelo protagonista no decorrer das inúmeras genialidades da obra. É quando explica seu horror por futebol, justificando: “Eu não vou ficar de cara no sol em um estádio para ver 22 milionários correrem ao redor de uma bola”. Nem eu.
Informo aos outros quatro torcedores do América do Rio que comigo formam a torcida alvirubra, que dei-me conta de que não há um único jogador de futebol no Brasil que mereça meu torcer. Outro dia, assisti ao Messi – aquele duende mágico – passar por dentro de três ou quatro adversários fazendo o que até Deus duvida. Que inveja.
Cheguei a ver Pelé. Sobre ele, dizia-se que eram necessários quatro jogadores para marcá-lo: dois para cercá-lo, um outro na sobra e mais um dentro da rede do adversário para pegar a bola. E havia outros: Gerson, Rivelino, Tostão, Garrincha, Didi, Zizinho, Telê, Romário e Zico.
Aqui em Vitória, quem não se lembra de João Francisco, Landi, Wilson Pereira, Moreira, Valmir, Luizinho, Silvinho, Leo Oliveira, Zé da Bola e muitos outros?
Era sagrado o fim de semana para os torcedores do Vitória, Rio Branco, Desportiva Ferroviária, Santos de Paul e Americano assistindo jogadas brilhantes, um futebol de primeira. E olha que os salários não eram lá essas coisas. Eram bancados, na maioria das vezes, por empresários capixabas apaixonados pelo Estado.
Me dá meu boné que não vou assistir mais jogadores no Brasil e presenciar a engorda de futuros craques para torná-los milionários. Isso tudo enquanto os peladeiros geniais perderam o único lugar de acesso à glória, nos estádios de futebol, onde todos eram iguais.
Até os bandeirinhas eram torcedores imparciais. Tanto é que uma vez, no Estádio do Rio Branco, o time estava perdendo e nos minutos finais a bola sai pela lateral. O bandeirinha acenou corretamente que a bola havia saído, mas não conteve o grito: “É nossa, é nossa”.
Aliás, perdeu-se muitas coisas boas. Mas nos deixaram a moqueca e a camaradagem. Jamais haverá uma Praia Comprida, do Canto, do Suá, onde a bola corria solta.
Havia espaço para todas as pessoas, para todas as peladas, todos os campeonatos de várzea, e o fenomenal campo do Salesiano, onde militavam futuros craques de Jucutuquara e Romão, abrigava emocionantes porfias depois da missa.
E os vibrantes e velozes micro-ônibus, do saudoso Marinho Delmaestro.
 

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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