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Economia

O preço da desconfiança sempre sai caro para o Brasil

Essa precificação se expressa em várias frentes: na inflação, nos juros e no câmbio em alta, no desemprego, no recuo dos investimentos produtivos, no aumento da pobreza e em outras dimensões do dia a dia das pessoas

Publicado em 18 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

18 set 2021 às 02:00
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

Em 2019 eram 24 milhões na pobreza extrema. Agora são 35 milhões, segundo a FGV
Aumento da pobreza é também um preço do estado de desconfiança Crédito: Shutterstock
Em economia, o preço da desconfiança muitas vezes pode sair caro, especialmente quando esta se torna persistente no tempo. Pior ainda quando contamina e desestabiliza as estruturas do sistema socioeconômico, político e institucional de um país.
É assim que vemos o Brasil, hoje, pagando um preço alto pelo que poderíamos chamar de permanência de um “estado de desconfiança”, que muito provavelmente será mantido, pelo menos até as eleições em 2022. Essa precificação se expressa em várias frentes: na inflação, nos juros e no câmbio em alta, no desemprego, no recuo dos investimentos produtivos, no aumento da pobreza e em outras dimensões do dia a dia das pessoas.
Numa economia assumida como capitalista, incertezas e crises são normalmente tidas como comuns e intrinsecamente inerentes a sua forma de operar, prosperar e avançar no tempo. O que a torna longeva e próspera, no entanto, são as instituições que lhe garantam, de forma contínua, a necessária passagem entre o presente e o futuro. Ou mais precisamente, que estas consigam gerar consensos em torno da crença de um futuro melhor.
John Maynard Keynes, sem dúvida o maior economista do século XX, criou uma espécie de termômetro para indicar o grau de “favorabilidade” à prosperidade das economias, denominado por ele de “estado de confiança”. Segundo ele, pioras no “estado de confiança” induzem os investidores a recuarem em suas decisões, pois se sentem inseguros sobre o futuro.
O que falta ao nosso país no momento é essa crença no futuro, que tende a afetar mais fortemente os investimentos. Empresários, empresas e investidores, internos e externos, de uma maneira geral parecem se sentirem frustrados em relação ao “estado de confiança” desejado. Naturalmente existem exceções, porém ainda restritas a alguns segmentos da economia.
Em suma, devemos entender os investimentos produtivos como elos entre o curto e o longo prazo. Se aqueles se mostram reduzidos hoje, as consequências virão no longo prazo. Tenho observado, por exemplo, recuos nos lançamentos previstos de IPOs para este ano, ou seja de empresas que buscam recursos na Bolsa de Valores para viabilizarem seus investimentos. Já é um indicador que aponta para consequências para os próximos anos. Da mesma forma estamos observando recuos de investidores externos.
Tudo indica que teremos um 2022 difícil do ponto de vista da economia e ainda muito provavelmente conturbado do ponto de vista da política. Mas, com certeza, será a economia a nortear o eleitor no momento de registrar o seu voto na urna eletrônica no próximo ano.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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