Quando vejo títulos públicos indexados à inflação no topo dos mais rentáveis, especialmente para o momento, isso não soa nada bem. Ao contrário, nos traz de volta tempos e legados que gostaríamos estivessem já sepultados. Foi a indexação generalizada de ativos financeiros que levou o país a uma hiperinflação e ao cultivo do que poderíamos chamar de cultura da inflação.
Uma economia que se preze minimamente organizada tem na sua moeda a força de uma instituição que dá suporte e conteúdo ao equilíbrio, a um estado de confiança que garanta razoavelmente a noção de estabilidade no tempo. Ela funciona como elo entre o presente e o futuro. No entanto, quando esse elo é enfraquecido, e isso acontece em processos inflacionários, o sistema econômico tem seu referencial de valor – dado pela moeda - também enfraquecido. E aí entra-se num jogo onde somente ganham os mais fortes.
Quando a inflação ultrapassa certos limites, corre-se sempre o perigo de se entrar num jogo de apostas de resultados previsíveis, como foi até o Plano Real em 1994. E, nesse aspecto, não gostaria de ter que reeditar o artigo que escrevi em 1992, neste mesmo espaço, sob o título “Inflação: Um Jogo de Apostas de Resultados Certos”. Afinal, o país naquela época apresentava inflação anual que chegou ao patamar próximo a dois mil por cento. Algo inimaginável, hoje.
Recordo-me que naquele meu artigo eu afirmava que, dado o caráter estrutural e até cultural da inflação brasileira, “o diagnóstico e a solução do problema da inflação não passaria exclusivamente pelas mentes iluminadas de economistas”. Não que a ciência econômica não pudesse contemplar uma explicação teórica plausível, mas porque o fenômeno da inflação já estaria ultrapassando as fronteiras de explicações a partir do campo puramente econômico, havendo a necessidade de se buscar explicações e saídas a partir de outros campos do conhecimento, como a sociologia, a antropologia, a ciência política ou mesmo a psicologia.
Ainda no mesmo texto citava um trecho de artigo do antropólogo Roberto DaMatta intitulado “Para uma Sociologia da Inflação”, editado no livro “Cultura da Inflação”, que para o momento atual pode nos servir de alerta. Assim se expressava Roberto DaMatta: “Cabe dizer que a inflação confirma a descrença na falta de medida e sustenta e amplia um tradicional sentimento de ausência de limites. Se não tenho essa moeda, vou usar outra. Não tenho aquela outra, tenho mais uma, e assim sucessivamente, até chegar à moeda corrente da violência física e da força bruta”.
Prefiro manter-me no otimismo e na crença de que nunca mais tenhamos que recorrer a um “Plano Real”. Mas acho que vale o alerta.