Recentemente, tive a oportunidade de visitar uma feira internacional focada em cafés especiais, a World of Coffee, em Berlin, na Alemanha. Lá, pude constatar substanciais transformações pelas quais vem passando o mundo dos cafés. Transformações essas que poderíamos caracterizá-las como disruptivas.
Mas o interessante mesmo é que lá estava bem representado o nosso Espírito Santo, com os cafés das montanhas de Venda Nova, Castelo, Santa Maria de Jetibá e Brejetuba. Aliás, nada surpreendente, pelo menos para quem acompanha a evolução da qualidade dos nossos cafés.
Foram intensos e, ao mesmo tempo, exaustivos os três dias dedicados a olhares e avaliações, embora não fossem de especialistas para que pudessem alcançar movimentos e tendências de mercado.
Além de mostrar a crescente diversidade de tipos de cafés, provenientes de uma grande quantidade de países, a World of Coffee espelha um mundo de conectividade, que agrega com intensidade novas tecnologias, internet das coisas e tudo o mais que oferece esse novo mundo digital. Mas, sobretudo, contando com a participação de jovens, por natureza, mais ousados.
É um mundo que se descola da lógica de mercado de commodities, operando através de intensas redes de micro relações. Na origem, aparece o produtor que se diferencia pela qualidade; na intermediação, uma sofisticada rede facilitadora das transações, projetando-se nos micro operadores locais, como as torrefadoras e cafeterias. Na outra ponta, esta sim a final, aparece o consumidor mais sofisticado, mais exigente e, da mesma forma, mais antenado. Nessa nova lógica o preço também é um diferencial.
É importante ressaltar que estamos tratando aqui de uma parcela diminuta do volume total de cafés que são produzidos e consumidos no mundo. O que predomina, de forma quase que absoluta, é a lógica do mercado de commodities, onde o preço é determinado pela demanda – flex price. E nesse aspecto o Brasil se destaca enquanto maior produtor e exportador de café verde do mundo. Chega a exportar cerca de 30% de tudo o que é movimentado no mundo: 34 milhões de sacas em 2018. No entanto, o mercado de cafés industrializados é dominado por países como Alemanha e Itália, que são favorecidos pelo simples fato de poderem importar, sem restrições, café verde de qualquer país.
Esse movimento de “descomoditização” dos cafés vem avançando também no Brasil, embora ainda que de forma menos acelerada do que, por exemplo, em países europeus. Mostra-se também como janela de oportunidades principalmente para pequenos produtores que queiram avançar, conectar-se ao “novo”, e compartilhar experiências no aprimoramento da qualidade e complexidade.