Retorno ao tema pois este povoou intensivamente os principais veículos de comunicação do país e gerou polêmicas. Mesmo com acenos lado a lado de apaziguamento do ambiente em torno das discussões sobre a taxa de juro básica da economia, a Selic, a meta da inflação e a própria autonomia do Banco Central, nada indica que a contenda não tenha continuidade ou mesmo não esquente ainda mais.
Nesta semana, por exemplo, o PT subiu o tom contra o Banco Central. A sua presidente, Gleisi Hoffmann, em discurso proferido na festa em comemoração de 43 anos de fundação do partido chegou a dizer que o “BC colabora com a mentira”; além de chamar o mercado financeiro de “antiquado e atrasado”. Um enfrentamento claro ao que ela chamou de “discurso mercadocrata”.
A mentira a que se refere Gleisi diz respeito à manutenção da taxa Selic no patamar de 13,75% sob a justificativa do risco fiscal. Segundo a dirigente petista não existiria risco fiscal nenhum, inclusive em relação à dívida interna, além do país manter alta as suas reservas internacionais. Uma avaliação no mínimo questionável.
Gleisi se esquece que nos governos do PT a SELIC alcançou patamares ainda mais elevados que o atual. Em 2005, no primeiro governo de Lula, a Selic atingiu 19,5%, combinada com uma inflação corrente de 6%. Em 2016, no governo de Dilma, a Selic chegou a 14,5% para combater uma inflação no entorno de 10%, em meio a uma das maiores crises da história da economia brasileira.
Hoje estamos com uma inflação acumulada em um ano próxima a 6%, porém com tendência de alta, sob uma taxa Selic de 13,75%. Temos um ganho real de quase 8%. Um recorde mundial que atrai investidores externos para o mercado financeiro, a despeito do risco interno. Bem diferente do que acontece nos Estados Unidos onde o banco central de lá, o FED, trabalha com uma taxa básica de juro de 4,5% para trazer a inflação a 2%, de um patamar que está hoje em aproximadamente 7%, porém em queda.
O problema é que o Brasil tem um histórico conturbado de controle inflacionário, sempre com imposição de sobrecarga sobre a política monetária e “porteira aberta” para os gastos públicos. É o cenário que temos no momento. Um contexto que não permite investidas aventureiras. Com certeza, não fossem a autonomia do Banco Central e sua rápida intervenção em elevar a taxa Selic, a gastança no final do governo de Bolsonaro teria gerado uma taxa de inflação muito mais elevada do que a observada hoje.
Nada impede que se discuta a meta inflacionária e a própria Selic. No entanto, o mercado precisa antes de tudo de algo para ancorar as suas expectativas mais a longo prazo. E esse algo será sempre o governo. E a autonomia do Banco Central existe como garantia da impessoalidade especialmente nas trocas de governantes.