Publicado em 1 de março de 2022 às 15:36
Daqui, de onde estou, vendo a vida pelas telas, me perguntei: alguém ouviu ou viu algo sobre a situação das pessoas com deficiência durante a invasão à Ucrânia? Na paz ou na guerra, com ou sem pandemia, a invisibilidade em relação às pessoas com deficiência é o triste ponto comum em todos os cenários. >
“O lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”. A frase de Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra e escritora, faz parte do seu livro O que é lugar de fala? lançado em 2017. Nele, Djamila apresenta um panorama histórico sobre as vozes que foram historicamente interrompidas. A partir disso, é possível questionar: quem tem mais chances de falar (e ser ouvido) na sociedade? >
Uso este espaço para abrir diálogo com você que me lê e me permite colocar na mesa as nossas pautas. Para resolver minha curiosidade (e preocupação) em relação às pessoas com deficiência que estão vivendo uma guerra na Ucrânia, fui pesquisar e olha o que descobri: a população ucraniana com deficiência é de 2,7 milhões de pessoas e as condições de acessibilidade para evacuação são precárias. Não há estrutura e por isso são forçadas a ficar em casa, sem rumo e desamparadas.>
O Fórum Europeu da Deficiência divulgou uma carta aberta aos chefes das instituições europeias, aos chefes de Estados europeus, russos e ucranianos e à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), para alertar sobre a situação dramática em que estão vivendo essas pessoas. A carta chama a atenção também para as mulheres com deficiência, pelo risco de violência sexual, e para as crianças expostas a abusos e abandono. Das pessoas com deficiência que vivem em instituições, segregadas de sua comunidade, entre elas estão 82 mil crianças com deficiência, que correm um risco enorme de serem esquecidas. >
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De acordo com a Inclusion Europe, uma instituição que atua em 39 países, o abandono de pessoas com deficiência, principalmente a intelectual, vem acontecendo a cada dia mais e de forma terrível. Muitas continuam presas em Kiev, ou melhor, em Kyiv – em respeito à nação que está sob ataque russo neste momento e que chama a capital de seu país em ucraniano, Київ (pronunciado ki-iv).>
Indo mais fundo em minha pesquisa, encontrei no site da ONU a notícia sobre Yulia Klepets, moradora de Kiev, que está isolada em seu apartamento junto com sua mãe de 82, com restrições de mobilidade, e sua filha Aryna, de 25 anos, que é autista. As três estão cercadas pelo confronto e próximo ao local onde moram houve um grande estrondo. Um prédio a 200 metros de sua casa foi atingido, abrindo um grande buraco, de onde surgiram fogo e fumaça. Os detritos voaram ao redor. Com a explosão, Yulia contou que sua filha Aryna entrou em choque e parou de se mexer. >
Acompanhar os desdobramentos da trágica situação da Ucrânia é sentir um bocado de angústia e indignação. É refletir sobre o processo histórico e ideologias que impedem um novo começo, um começo que integre a essência do ser humano, e, sobretudo, que abra caminhos para a libertação e a liberdade. Vejo a obra da cientista política, Hannah Arendt (1906 – 1975), presente nas questões contemporâneas que estamos presenciando. Num trecho do livro sobre o totalitarismo, ela disse: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”.>
O momento nos exige um escudo, palavras que nos defendam, precisamos de conhecimento, de bandeiras que sinalizem as urgências, para que nossos esforços não sejam dispersados nem nossas lutas. Minha torcida e orações são para que o terror cesse fogo imediatamente. E que a falta de coerência das justificativas para os ataques ao povo ucraniano encontre a esperança e a compaixão. Que as catástrofes do passado não sejam esquecidas e que a lógica da intolerância, do ódio e da ganância encontre a resistência da liberdade e da humanidade. Que o medo seja a proteção e a esperança a munição. Que no feriado da Semana Santa possamos ter paz. Porque neste carnaval, só vimos as cinzas que uma guerra é capaz de produzir. >
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