Você já se perguntou quantos anos de vida uma árvore pode lhe dar?
A princípio pode parecer exagero, mas a resposta está bem diante de nós, ou melhor, naquilo que falta em muitas cidades brasileiras: árvores. Em um mundo em que mais de 55% da população vive em áreas urbanas e onde eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, as chamadas “cidades verdes” surgem não só como alternativa sustentável, mas como uma necessidade urgente para a saúde pública.
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cidades com boa cobertura vegetal apresentam até 30% menos internações por doenças respiratórias. Londres, Melbourne, Copenhague e Medellín são exemplos de cidades que já entenderam essa relação e vêm transformando seus espaços urbanos em corredores ecológicos, mais frescos, saudáveis e humanos.
No Brasil, apesar dos avanços na redução do desmatamento que caiu 32% em 2024, ainda temos um enorme desafio urbano: a arborização. O país possui, em média, menos de 10 metros quadrados de área verde por habitante, quando o recomendado pela OMS é de pelo menos 12 m². As florestas vêm sendo recuperadas, mas nossas calçadas, praças e pátios escolares continuam cinzentos e pouco acolhedores.
A relação entre arborização e saúde é respaldada pela ciência. Um estudo da revista The Lancet Planetary Health revelou que a presença de árvores no ambiente urbano pode reduzir significativamente níveis de estresse, melhorar a qualidade do sono e ajudar no combate à depressão e ansiedade. Bairros arborizados também são mais frescos a temperatura pode ser até 5°C menor do que em áreas sem vegetação, aliviando os efeitos das ondas de calor que afetam principalmente idosos e crianças.
O Japão levou essa conexão a sério. Lá, médicos passaram a prescrever caminhadas em áreas verdes como parte do tratamento para pacientes com hipertensão, estresse e outras condições. A prática, conhecida como shinrin-yoku ou “banho de floresta”, já integra o sistema de saúde pública. Se isso funciona em Tóquio, por que não em Vitória, Cachoeiro do Itapemirim, Alegre, Cariacica ou Santa Leopoldina?
No Espírito Santo, temos um paradoxo ambiental: somos um dos estados com maior cobertura de Mata Atlântica do país, mas ainda convivemos com cidades que carecem de políticas públicas de arborização urbana. Em Vitória, já há programas mais estruturados, mas o interior do estado municípios como Pancas, Divino São Lourenço e Santa Leopoldina, Vila Velha e demais municípios do estado ainda enfrentam desafios estruturais e climáticos que tornam urgente a adoção de estratégias verdes.
Algumas iniciativas locais merecem destaque. Em Alegre, Vitória e Serra por exemplo, está em desenvolvimento um Plano Municipal de Arborização e Paisagismo Sustentável, que visa integrar o enfrentamento das mudanças climáticas com saúde pública e melhoria da paisagem urbana. Além disso, o Governo do Estado tem fortalecido o Fundo Cidades Resilientes, que oferece apoio técnico e financeiro a municípios interessados em implantar ações de arborização, reflorestamento urbano e soluções de conforto térmico.
Mas para além dos gestores públicos, é fundamental envolver a população nesse debate. Cada cidadão pode refletir sobre como está o verde ao seu redor. A sua rua tem sombra natural? A praça mais próxima tem árvores e bancos sob a copa? Você já percebeu o aumento da temperatura nos últimos verões? Conhece alguém que teve problemas de saúde agravados pelo calor ou pelo ar seco?
Pensar sobre isso é o primeiro passo para agir. Há espaço para pressionar prefeituras por planos de arborização, envolver escolas em ações de plantio e até organizar mutirões comunitários. Plantar árvores é um gesto silencioso, mas profundamente transformador. É política pública na forma de semente.
Como disse a urbanista e sanitarista Maria Paula Chagas, da USP: “Cuidar das árvores é cuidar das pessoas. Não se trata apenas de embelezar, mas de proteger, curar e prevenir”.
Cidades verdes inteligentes não são luxo. São uma condição básica para saúde, bem-estar e qualidade de vida. São sobrevivência.