Quem é a centro-direita que se fortaleceu no ES em 2024
Eleição municipal
Quem é a centro-direita que se fortaleceu no ES em 2024
Políticos e partidos que se definem como moderados, mas à direita, foram os vencedores nas principais cidades. Mas quem são essas pessoas e siglas? O que isso aponta, quando falamos de outro pleito, o de 2026? Confira na coluna
O resultado das urnas em 2024 deu alguns sinais sobre os grupos políticos que tendem a se consolidar no Espírito SantoCrédito: Divulgação
Quantitativamente, o partido que teve o melhor desempenho na eleição de prefeitos no Espírito Santo em 2024 foi o PSB do governador Renato Casagrande, uma legenda de centro-esquerda. O Partido Socialista Brasileiro vai comandar, a partir de 2025, 21 municípios capixabas, o maior número entre todas as siglas e superior às 13 cidades que o próprio PSB conquistou em 2020.
Mas os 21 municípios em que a legenda venceu estão no interior do estado, têm população e relevância político-econômica bem inferior quando comparados a cidades da Grande Vitória e a outras estratégicas.
Nesses locais, quem se saiu melhor foram partidos e políticos de centro-direita ou de centro. Vejamos:
Com exceção de Pazolini, todos esses são aliados de Casagrande ou orbitam o grupo político do governador.
Mas, em 2026, o socialista não vai concorrer ao Palácio Anchieta, pois já está no segundo mandato consecutivo. O fortalecimento da centro-direita agora indica que esse pode ser o caminho a ser seguido pelos eleitores daqui a dois anos.
E quem é essa centro-direita?
"Ah, não tem nada de direita, são partidos do Centrão, sem ideologia nenhuma", poderia um leitor, ou leitora, observar.
Primeiramente, é preciso ressaltar que não faço aqui um exame de DNA ideológico.
Os partidos e políticos vitoriosos nas principais cidades do Espírito Santo apresentam-se, no estado, como de direita, uma centro-direita, longe do sectarismo do PL do senador Magno Malta.
E é assim, muito provavelmente, que são percebidos pelos eleitores. Há muitos senões? Há. Mas, pragmaticamente falando, "é isso aí", como diria Ana Carolina.
Peço perdão por talvez soar repetitiva, mas volto a frisar: a eleição municipal no Espírito Santo não foi "nacionalizada", ou seja, não imitou a polarização nacional de 2022 entre PT e PL.
Por isso, candidatos mais moderados, com discursos voltados a questões locais, saíram-se melhor.
Mas não podemos deixar de reparar que é uma moderação à direita.
O REPUBLICANOS DE PAZOLINI
O Republicanos passou de nove para oito prefeituras no Espírito Santo. Disputa o segundo turno na Serra, representado pelo deputado estadual Pablo Muribeca, que concorre contra Weverson Meireles (PDT).
Mais uma vez, observo que a medida aqui não é numérica e sim em termos de relevância das conquistas.
A reeleição de Pazolini no primeiro turno, sem dúvidas, fortalece muito o partido. O prefeito da Capital alcançou esse resultado apesar do esforço contrário e indireto do governador.
Vitória é a principal vitrine municipal e mesmo antes do pleito já se especulava que, se Pazolini saísse forte, passaria a ser um virtual candidato ao Executivo estadual.
Além da Capital, o Republicanos impôs uma derrota a Casagrande em Guarapari. Lá, o vereador Rodrigo Borges (Republicanos) venceu Zé Preto (PP), deputado estadual que contava declaradamente com o apoio do governador.
As oito cidades conquistadas pelo Republicanos foram: Castelo; Guarapari; Iconha; João Neiva; Mimoso do Sul; Sooretama; Venda Nova do Imigrante e Vitória.
A ida ao segundo turno na Serra, com Muribeca, também é uma demonstração de força.
Mas o partido sofreu uma derrota significativa em Linhares. Lá, Lucas Scaramussa, um deputado estadual casagrandista, destronou o atual prefeito Bruno Marianelli (Republicanos).
O Republicanos integra o Centrão na Câmara dos Deputados, aquele grupo de partidos fisiológicos que, entra governo, sai governo, está ao lado ... do governo.
Tem até um ministério na gestão de Lula (PT), o de Portos e Aeroportos, controlado pelo deputado federal Silvio Costa Filho (Republicanos).
Na Câmara, entretanto, nem todos os filiados à legenda votam de acordo com as orientações governistas.
Lorenzo Pazolini e Erick Musso, do Republicanos, e Cris Samorini, do PPCrédito: Instagram/@erickmusso
O Republicanos surgiu como um braço político da Igreja Universal do Reino de Deus e é presidido, nacionalmente, por um bispo licenciado da denominação religiosa, o deputado federal Marcos Pereira (SP).
O slogan da sigla é "O verdadeiro partido conservador do Brasil".
Também podemos citar o presidente estadual do partido, o ex-deputado estadual Erick Musso, e o deputado federal Messias Donato. Este tem um perfil mais parecido com os radicais do PL e é aliadíssimo de Euclério Sampaio.
O outro deputado federal do Republicanos no estado é Amaro Neto.
O PODEMOS DE ARNALDINHO
Reconduzido ao cargo com 79,04% dos votos, o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, quebrou vários recordes e ciclos. Cravou a primeira vitória em primeiro turno e a primeira reeleição nos últimos 20 anos na cidade.
E o prefeito foi o candidato mais votado em todo o Espírito Santo em números absolutos, com 193.451 votos.
Isso faz com que ele também seja lembrado como um possível candidato ao governo em 2026.
Mas não somente de Arnaldinho se faz o Podemos. O partido conquistou, ao todo, 11 prefeituras em 2024 no estado, o que o coloca em terceiro lugar no ranking.
As 11 são: Fundão; Ibiraçu; Iúna; Linhares; Marataízes; Montanha; Rio Bananal; Rio Novo Do Sul; São Mateus; Viana e Vila Velha.
Em termos populacionais, o partido ocupa a primeira posição. A partir de 2025, o Podemos vai governar cerca de um milhão de habitantes do Espírito Santo.
Prefeitos eleitos pelo Podemos na Grande Vitória. Ao fundo, o presidente estadual do partido, Gilson DanielCrédito: Instagram/@gilsondaniel1919
Viana é reduto do presidente estadual do Podemos, o deputado federal Gilson Daniel, ex-prefeito da cidade.
Gilson também sai fortalecido do pleito municipal. Nos bastidores, foi alvo de críticas dos próprios correligionários por ser muito centralizador na condução da legenda, mas deu resultado.
O Podemos tem cargos no governo Lula. E é base de apoio do governo Casagrande.
No Espírito Santo, congrega políticos que se autodenominam de centro-direita, como os próprios Gilson Daniel e Arnaldinho. Há também o deputado federal Dr. Victor Linhalis.
Em 2024, nos bastidores, casagrandistas tentaram fazer com que o Podemos se coligasse com o PT de João Coser em Vitória, mas o partido, especialmente Gilson Daniel, recusou-se peremptoriamente.
O PP DE THEODORICO FERRAÇO
O Progressistas (PP) é o segundo partido que mais elegeu prefeitos no Espírito Santo, 12. O destaque vai para as vitórias em Cachoeiro, com Theodorico Ferraço, e Aracruz, com Doutor Coutinho.
Ferraço é, inequivocamente, um homem de direita. Iniciou a carreira na Arena, que dava sustentação ao regime militar, mas não se alinha, por exemplo, aos preceitos dos mais radicais apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A vitória de Ferraço garantiu um reduto importante para o PP.
O Progressistas, porém, sofreu duas derrotas relevantes que reduzem o plano de expansão: o ex-prefeito Audifax Barcelos não passou do primeiro turno na Serra e o deputado estadual Zé Preto não foi eleito prefeito de Guarapari.
Ainda assim, o PP aliou-se aos vencedores em cidades-chave, como Cariacica, Vila Velha e Vitória.
Na Capital, inclusive, está o trunfo do PP, a vice-prefeita eleita Cris Samorini.
Se Pazolini deixar o mandato para disputar o governo estadual em 2026, Cris e, consequentemente, o Progressistas, vão herdar a prefeitura de Vitória.
Presidente estadual do PP, Da Vitória comemora resultado eleitoral do partido em 2024Crédito: Instagram/@deputadodavitoria
O PP, assim como o Republicanos, é um partido do Centrão. Tem ministério no governo Lula, o de Esportes, chefiado por André Fufuca.
Mas é presidido nacionalmente por Ciro Nogueira, que foi ministro-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro.
No Espírito Santo, o PP é integrado por políticos majoritariamente de centro-direita, como o presidente estadual, o deputado federal Da Vitória.
O partido é aliado do governador Renato Casagrande, embora abrigue o deputado federal Evair de Melo, que faz oposição ao socialista e ao governo federal.
EUCLÉRIO E RENZO
O prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio, teve uma vitória acachapante. Com o apoio de Casagrande, foi reeleito no primeiro turno com 88,41% dos votos.
Em 2020, ele foi eleito pelo União Brasil. Depois, migrou para o MDB, uma sigla de centro que também integra o governo Lula.
O prefeito de Cariacica é um político de centro-direita, que uniu aliados bolsonaristas (principalmente os não filiados ao PL) e partidos de centro-esquerda, como PSB e PDT.
O MDB de Euclério elegeu seis prefeitos no estado em 2024 e ainda tenta resgatar a relevância que um dia teve. O único destaque mesmo é a reeleição em Cariacica.
A vitória de Euclério é mais uma que reforça a prevalência de políticos de centro-direita nas principais cidades capixabas.
O palanque diverso de Euclério Sampaio em Cariacica. Ao centro, abaixado, o presidente estadual do MDB, o vice-governador Ricardo FerraçoCrédito: Divulgação
Por fim, há a eleição de Renzo Vasconcelos em Colatina.
O ex-deputado estadual desbancou o atual prefeito, Guerino Balestrassi (MDB). Aliás, esta foi uma derrota sensível para os emedebistas e também para o governador, que havia declarado apoio a Guerino na reta final.
Renzo é também um político de centro-direita. Agora filiado ao PSD, sigla que preside no Espírito Santo, em 2022 ele estava no PSC, o Partido Social Cristão, que acabou por ser incorporado ao Podemos.
O prefeito eleito da princesinha do Norte chegou a ser chamado de "melancia" (verde por fora e vermelho por dentro) durante a campanha pelo candidato do PL à prefeitura, Luciano Merlo. Renzo fez troça disso e se deu bem.
Correção
22/10/2024 - 11:38
Ao contrário do que a coluna registrou anteriormente, o PP não esteve, na campanha, ao lado do prefeito eleito de Linhares, Lucas Scaramussa (Podemos). Coligou com Bruno Marianelli (Republicanos), que foi derrotado.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.