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Empresas

Capitalismo de propósito: a evolução do sistema em que vivemos

Penso que o novo capitalismo exige que todos os empreendedores enxerguem além dos muros de sua própria empresa, contribuindo para reduzir desigualdades e promover a inclusão

Publicado em 29 de Setembro de 2024 às 01:00

Públicado em 

29 set 2024 às 01:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

O capitalismo moderno como conhecemos hoje tem origens na Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra há 200 anos, com a invenção do motor a vapor. Ao longo desse tempo, ele passou por diversas transformações, e neste momento testemunhamos mais uma: trata-se do capitalismo de propósito, também conhecido como capitalismo consciente.
O tema ganhou grande repercussão nos últimos dias com a declaração inaceitável do empreendedor Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi. Como se sabe, ele causou polêmica ao responder a um seguidor no Instagram, dizendo: “Deus me livre de mulher CEO”.
Foi imediatamente cancelado: uma empresa o afastou do conselho de administração, outra suspendeu uma palestra sua para 1,2 mil pessoas e ele teve de renunciar ao cargo de CEO da G4 Educação, empresa que fundou, tendo sido substituído por uma mulher, Maria Isabel Antonini.
Apesar de jovem, faltou ao executivo compreender o espírito do tempo, ou o chamado zeitgeist: o conjunto de ideias, crenças, comportamentos e influências que caracterizam o nosso momento histórico.
Mas afinal, o que é o capitalismo de propósito? Trata-se de uma evolução do modelo capitalista tradicional, no qual as empresas não focam mais exclusivamente o lucro. Elas também se preocupam em gerar impactos positivos para a sociedade e o meio ambiente. O sucesso empresarial então passa a ser medido não apenas pelo desempenho financeiro, mas também pela contribuição para o bem-estar social, a sustentabilidade ambiental e a ética.
As empresas que adotam o capitalismo de propósito compreendem que os negócios devem ser parte da solução para desafios globais, incluindo as mudanças climáticas e a desigualdade social. Elas buscam alinhar os seus interesses com os de todas as partes interessadas — acionistas, funcionários, clientes e a comunidade em geral — gerando valor compartilhado.
Esse movimento reflete uma mudança cultural e de expectativas por parte dos consumidores, investidores e da sociedade, que cada vez mais exigem responsabilidade social e transparência das corporações e de seus líderes, tornando o capitalismo mais inclusivo e sustentável.
O movimento surgiu de um estudo acadêmico nos Estados Unidos, que buscava entender a fidelidade dos clientes a uma marca, a partir de princípios que impactam o mundo de forma positiva.
No livro “Reimagining Capitalism in a World on Fire”, ou “Reimaginando o Capitalismo num mundo em chamas”, a economista Rebecca Henderson argumenta que o verdadeiro valor corporativo vai além do lucro: ele está na capacidade das empresas de gerar impacto positivo, e isso não é por caridade ou filantropia. Empresas que realmente se comprometem com mudanças sociais e que envolvem suas lideranças no processo acabam conquistando a lealdade dos consumidores e constroem marcas resilientes.
No capitalismo de propósito, a narrativa é essencial, disse a especialista em ESG e Inovação Andiara Petterle, em artigo recente no Valor Econômico. “O executivo de hoje precisa alinhar discurso, prática e o espírito do tempo”, resume ela.
Diversidade nas empresas é uma tendência
Diversidade nas empresas é uma tendência Crédito: Pixabay
A história mostra que o capitalismo sem dúvida é o melhor sistema de produção, promovendo a eficiência econômica, a inovação contínua, a geração de riqueza e empregos, ampliando o acesso a bens e serviços. Contudo, como tudo na vida, não é um sistema perfeito e está sempre em evolução.
De minha parte, posso dizer que procuro dar a minha contribuição, nas organizações e empresas em que atuo. No setor imobiliário, por exemplo, atuamos dentro da engenharia do desenvolvimento da cidade, com a preocupação de impactar positivamente a comunidade onde empreendemos, promovendo a qualidade de vida, seguindo o conceito de gentileza urbana.
Gentileza urbana é um conceito que considera todas as ações pensadas para as pessoas e desenvolvidas para melhorar o ambiente urbano, beneficiando a convivência entre os moradores da cidade. É fazer com que o entorno do investimento seja mais amigável para a comunidade.
Na indústria de embalagem, onde estão minhas raízes, as nossas iniciativas são focadas na sustentabilidade e na economia circular, com o uso de energia 100% renovável e material 100% reciclável e de fácil reprocessabilidade, podendo o material ser reutilizado para a produção de outros itens após o descarte, o que aumenta a sua vida útil. Investimos constantemente em tecnologia, equipamentos de última geração, gestão e conhecimento para que os produtos que oferecemos sejam os melhores.
Também dedicamos tempo dos nossos executivos e sócios das empresas para agendas coletivas, como a participação ativa em associações, federações, ONGs e confederações. Temos uma agenda importante de formação de talentos, de capital humano, contribuindo para a igualdade de oportunidades na organização.
Penso que é isso que o novo capitalismo exige dos empreendedores: que todos possam enxergar além dos muros de sua própria empresa, contribuindo para reduzir desigualdades, promover a inclusão, trabalhando pela melhoria geral dos níveis de educação e renda, contribuindo enfim para uma sociedade mais justa e equilibrada, sempre conciliando discurso e prática. A palavra do líder, cada vez mais, deve realmente refletir um conjunto de valores que ele e sua organização representam. Quem não entender isso pode acabar saindo do jogo.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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