Um estudo publicado na Science em 2022, acompanhando milhões de recrutas americanos por mais de duas décadas, mostrou correlação entre o vírus de Epstein Barr, causador da mononucleose infecciosa, e o aparecimento de esclerose múltipla. A esclerose múltipla é doença crônica do sistema nervoso central, por uma provável alteração imune que poderia ser desencadeada por uma infecção viral. Em junho do ano passado a atriz Guta Stresser, a Bebel da Grande Família, revelou ser portadora.
Nos dois últimos anos surgiram diversos relatos de alterações cognitivas na Covid longa, outra doença viral. Esses achados motivaram um grupo de pesquisadores do National Institute of Health, USA, a pesquisar a associação entre exposição a doenças virais e doenças neurodegenerativas, em dois grandes bancos de dados, um finlandês e outro britânico.
Em artigo publicado em abril, no periódico Neuron, esses autores identificam 45 exposições virais associadas com risco maior de doenças neurodegenerativas. De longe, a associação mais marcante foi com encefalite viral e doença de Alzheimer. Mas viroses como a simples gripe (influenza), e mesmo pneumonia viral, mostraram associação de risco com doença de Ahzheimer, doença de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica e demência vascular.
Os pesquisadores registram que o risco de associação é mais nítido em casos graves, com internação hospitalar. Os riscos persistem por até 15 anos após a infecção viral. Uma possível explicação seriam os processos inflamatórios no cérebro em doenças infecciosas mais severas e duradouras levando à queda da reserva neurocognitiva e a resiliência a neurodegeneração.
Herpes simples e herpes zoster também são doenças infecciosas que se associaram a maior risco de doenças neurodegenerativas. Em 2017, quase cem anos após a grave epidemia de gripe espanhola, foi publicada a primeira associação entre gripe e risco de Parkinson.
Os autores registram com cautela que associação de risco não quer dizer simplesmente causa; que essas doenças são complexas e que os processos se iniciam mais de uma década antes do diagnóstico. Mas concluem sugerindo um maior esforço na vacinação de adultos para gripe, pneumonia e herpes zoster, que reduzem a incidência de casos graves e menos inflamação para o cérebro.