Alguém precisa ensinar ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral que pesquisa de intenção de voto não é feita para adivinhar o resultado das eleições que serão realizadas tempos depois. Só assim o ministro se convenceria de que é uma bobagem propor – como ele fez no dia 13 – criar um “selo de acurácia eleitoral” para premiar os institutos de pesquisa que mais se aproximam do resultado das urnas.
A ideia do ministro é distribuir o tal selo de quatro em quatro anos, após o segundo turno das eleições, como uma benesse de caráter simbólico, “honorífico”, que não significaria que a Justiça Eleitoral chancela a metodologia dos institutos homenageados e também não os blindaria de questionamentos judiciais.
Se o ministro compreendesse que o resultado de uma pesquisa eleitoral, aferido por critérios estatísticos e científicos (com amostragem, margem de erro, intervalo de confiança, etc) é apenas um retrato aproximado de um momento da campanha eleitoral, não faria a proposta de criação do selo.
Como é uma fotografia, tirada em um momento do jogo eleitoral, a pesquisa não tem a pretensão de adivinhar o resultado final desse jogo. Seu propósito é tão somente dar informações a todos os atores envolvidos na disputa – candidatos, partidos políticos, eleitores – para que eles possam tomar decisões.
Essas informações são úteis aos candidatos e aos seus partidos para, por exemplo, manter ou modificar os rumos das campanhas. Para saberem o que fazer nas zonas eleitorais onde estão em desvantagem em relação aos seus adversários.
Para calibrar os seus pronunciamentos visando conquistar apoio nos extratos sociais onde são mais vulneráveis. Para montar os seus roteiros de visitas. Enfim, para tomar decisões que os ajudem a ter êxito no pleito.
As pesquisas eleitorais quase sempre mostram, nos seus resultados, as reações dos eleitores às ações dos candidatos. Se a campanha está no rumo certo, a reação dos eleitores é positiva. Se surgem obstáculos no caminho – como denúncias de corrupção ou envolvimento de candidatos em escândalos – os resultados das pesquisas geralmente mostram oscilações.
A pesquisa é, assim, um termômetro que informa a temperatura do ambiente eleitoral, em um instante específico, cabendo à campanha do candidato agir para tentar manter ou modificar essa temperatura.
Os políticos sabem, por experiência própria, que o eleitor decide o seu voto ao longo da campanha eleitoral. A intenção de voto de hoje pode não ser a mesma de amanhã. É por essa razão que a pergunta-chave das pesquisas é “se a eleição fosse hoje e os candidatos fossem esses, em quem você votaria?” Como a eleição não será realizada hoje, a resposta não revela em quem o eleitor votaria meses, semanas, dias ou horas depois.
Outra questão importante que envolve as pesquisas eleitorais é se ela influencia o voto do eleitor. Sim, influencia na medida em que se trata de uma informação relevante que é, naturalmente, considerada pelo eleitor.
Mas é preciso entender que nem sempre essa influência conduz o eleitor a votar em quem aparece em primeiro lugar nos levantamentos. O eleitor, explicam os analistas, muitas vezes é levado a votar mais nas tendências de crescimento ou declínio de determinados candidatos. Isso explica a ocorrência de muitas viradas de última hora em que candidatos situados em segundo, terceiro ou até quarto lugar nas pesquisas acabam sendo eleitos nas urnas.
Fica aqui então uma sugestão para o ministro presidente do TSE: desista da sua proposta descabida de criação do selo de qualidade – ou selo de acurácia como consta da sua proposta – porque, em síntese, pesquisa de intenção de voto é somente isso, um levantamento que busca fotografar um momento da campanha. E não uma bola de cristal que se propõe a adivinhar o resultado de uma eleição que ocorrerá no futuro.