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Política

O modus operandi de um presidente populista

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas últimas semanas, tem dado aulas explícitas de populismo, superando os áureos tempos de Getúlio Vargas, considerado pela maioria dos historiadores como o criador da versão verde-amarela

Publicado em 19 de Julho de 2024 às 01:45

Públicado em 

19 jul 2024 às 01:45
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Os dicionários trazem vários significados para a expressão “populismo”. A mais próxima do caso brasileiro é a que fala em “prática política que se arroga a defesa dos interesses das classes de menor poder econômico, a fim de conquistar a simpatia e a aprovação popular”, “através de práticas paternalistas e assistencialistas”.
Vale acrescentar, para ser fiel ao que acontece na nossa pátria, com requintes de demagogia (“claro interesse em manipular ou agradar a massa popular, incluindo promessas que muito provavelmente não serão realizadas”), visando apenas a conquista da simpatia dos menos favorecidos.
Se assim é, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas últimas semanas, tem dado aulas explícitas de populismo, superando os áureos tempos de Getúlio Vargas, considerado pela maioria dos historiadores como o criador da versão verde-amarela do populismo.
A começar pela série de entrevistas de Lula, a partir do final de junho, criticando a taxa de juros e o Banco Central. As críticas eram dirigidas ao presidente do banco, Roberto Campos Neto, com Lula fingindo esquecer que entre os integrantes do Copom, Comitê de Política Monetária – que definiu por unanimidade a atual taxa de juros Selic – estão quatro diretores indicados por ele.
Por que razão Lula decidiu, logo agora, criticar a taxa de juros? Segundo integrantes do próprio governo, pesquisas internas avaliaram que a grande maioria da população é contra os juros altos. E nem era preciso que pesquisas concluíssem isso porque quem, em sã consciência, pode dizer que é a favor de juros altos?
Pronunciamentos do presidente responsabilizando o presidente do Banco Central pela atual taxa de juros tiveram, então, o claro objetivo de melhorar o seu índice de popularidade que, também atestavam as pesquisas, estava em declínio.
Ocorre que as entrevistas de Lula, como não poderia deixar de ser – em economia, ninguém desconhece que as expectativas estão sempre relacionadas com o que diz o presidente da República –, tiveram efeitos negativos no câmbio, fazendo a cotação do dólar disparar a ponto de ela chegar, em 2 de julho, a R$ 5,70, o maior nível desde o auge da pandemia, há 30 meses.
Ao dizer que “o Banco Central não pode estar a serviço do mercado” e que não tinha que prestar contas a “banqueiro” ou a “ricaço” mas sim “ao povo pobre do país”, Lula sinalizou claramente a intenção de controlar a moeda e o seu descompromisso com o ajuste fiscal.
Alertado pela equipe econômica dos maus efeitos do dólar nas alturas, uma semana depois de faturar os efeitos do seu populismo Lula mudou radicalmente o discurso: parou de criticar o Banco Central e passou a dizer que “a redução do déficit público” é “um compromisso da sua gestão”. A mudança, é claro, fez a cotação do dólar recuar, já que o motivo da alta não era outro senão o comportamento do próprio presidente.
Mas o populismo de Lula não parou aí: contrariando o que havia sido proposto pela equipe econômica do governo, Lula passou a defender publicamente a inclusão das carnes na cesta básica com isenção de impostos, no projeto de lei complementar que regulamenta a reforma tributária.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Cúpula do Mercosul, em Assunção no Paraguai
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Cúpula do Mercosul, em Assunção no Paraguai Crédito: RICARDO STUCKERT/PR
Ou seja: Lula dizia uma coisa, mas o projeto apresentado pelo seu governo não contemplava as carnes na cesta básica, pois se isso ocorresse o limite estabelecido de 26,5% para a carga tributária seria ultrapassado em 0,53 ponto percentual. Na véspera da votação o próprio ministro Haddad informou que a equipe econômica era contrária à inclusão. Na manhã do dia da votação, 10 de julho, o líder do governo na Câmara chegou a anunciar que o PT e o governo não iriam tomar a iniciativa de incluir as carnes na cesta básica.
Coube à oposição na Câmara apresentar um destaque a uma emenda do deputado Altineu Côrtes (PL-RJ) propondo a inclusão das carnes e outras proteínas animais na cesta básica, acrescentando que toda vez que a taxa de referência ameaçar ultrapassar o índice de 26,5%, medidas de redução da carga tributária seriam acionadas.
A estimativa é que esse cálculo deverá ser feito em 2031 já que as alíquotas do IBS e da CBS passarão a valer integralmente em 2033. Somente depois da formalização da proposta, instantes antes da votação, o relator, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), admitiu acatar a emenda que foi, em seguida, aprovada no plenário por 477x3.
Agora, os partidários de Lula trombeteiam o fim dos impostos nas carnes como “uma vitória” do presidente. Na verdade, o que ocorreu é que Lula falava uma coisa (que era a favor das carnes na cesta básica) mas seu governo fazia outra (propunha a cesta básica sem as carnes). Nem Vargas seria capaz de praticar um populismo mais explícito do que esse.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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