A votação no Senado que aprovou a recondução de Augusto Aras na Procuradoria Geral da República por 55 votos a 10, no último dia 24, exibiu, sem retoques, as faces das personagens que conceberam e realizaram o desmonte da Operação Lava Jato. São elas o presidente da República, autor da proposta de recondução do procurador, a grande maioria da classe política aninhada em praticamente todos os partidos – da situação e da oposição, inclusive os parlamentares que se alinham ao bolsonarismo e ao lulismo – e, é claro, o próprio Aras que, na sabatina, repetiu as críticas que costumeiramente faz à Lava Jato.
E por que Aras ganhou o apoio maciço da classe política? Porque ele, ao operacionalizar o desmonte da Lava Jato, colocou a classe política mais distante da ameaça de apuração e punição dos malfeitos.
A Lava Jato, todos sabemos, foi a mais bem-sucedida iniciativa de combate à corrupção no país, com suas 130 denúncias contra 533 acusados que resultaram em 278 condenações de 174 réus, muitos deles cabeças coroadas da política brasileira. É obra da Lava Jato a recuperação de R$ 4,3 bilhões que haviam sido surrupiados do país por réus confessos.
Aras nunca escondeu o seu propósito de acabar com a Lava Jato. Foi ele quem disse que a força-tarefa mantinha uma “caixa preta” em Curitiba e que iria agir para que “o lavajatismo não perdurasse”. Foi Aras que, em fevereiro, extinguiu a força-tarefa de Curitiba, o símbolo maior da Lava Jato.
Foi ele, também, que acusou, durante a sabatina no Senado, as forças-tarefas de cometerem irregularidades, chegando a citar as mensagens que haviam sido hackeadas de forma criminosa. Para não deixar dúvidas sobre sua posição, Aras declarou no Senado que a política não deve ser “criminalizada”.
Foi por isso que Aras conseguiu o apoio da grande maioria dos parlamentares que o sabatinaram. Mesmo sendo a votação secreta, os pronunciamentos e comportamentos demonstram que ele ganhou os votos de todas as forças políticas interessadas no fim da Lava Jato.
Lá estavam, por exemplo, os votos dos bolsonaristas que sabem que Aras tem demonstrado alinhamento com o governo. Lá estavam os votos do PT que não se conforma com a prisão de Lula pela “República de Curitiba”. Lá estavam também os votos do Centrão, grupo que abriga uma grande quantidade de parlamentares que estiveram – ou ainda estão – na mira da Lava Jato.
O senador Alessandro Vieira chegou a escrever em uma rede social que o que houve no Senado foi um “casamento de conveniência entre Bolsonaro, PT e Centrão” com o objetivo de “garantir a impunidade daqueles que se encontram no topo do sistema”. Vieira tem tido uma participação ativa na CPI da Covid-19 cujas conclusões, ainda a serem divulgadas, provavelmente vão tentar criminalizar agentes do Executivo e do Legislativo. Conclusões que farão parte de um processo que brevemente deverá estar nas mãos – sabem de quem? – de Augusto Aras.