Publicado em 30 de agosto de 2021 às 15:32
A recondução de Augusto Aras ao comando do Ministério Público Federal injetou dose de pessimismo em setores da instituição. >
Não havia dúvida quanto à aprovação de seu nome pelo Senado, mas o placar amplamente favorável a ele (foram 55 votos a 10), após uma sabatina que não lhe impôs dificuldades, foi encarado como sinalização de que a toada no MPF seguirá a mesma nos próximos meses.>
Pelo menos até as urnas de 2022, não se espera do procurador-geral da República nenhuma mudança de rumo. A tendência do chefe do MPF é continuar alinhado aos interesses do Palácio do Planalto e do presidente Jair Bolsonaro.>
Esse cenário é encarado com desânimo por quem é responsável por áreas do MPF encarregadas de lidar com assuntos sensíveis ao bolsonarismo, tais como meio ambiente e direitos humanos.>
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Integrantes da Procuradoria ouvidos pela reportagem se ressentem da falta de respaldo da atual cúpula da PGR (Procuradoria-Geral da República) para tocar apurações nessas áreas e acreditam que a situação tende a se agravar à medida que as eleições se aproximem.>
Um trecho da sabatina de Aras na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado é apontado como exemplo dessa alegada falta de apoio.>
Em sua intervenção, o senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS) reclamou da atuação de procuradores da República sobre questões fundiárias envolvendo indígenas.>
"Hoje tem centenas, tem dezenas de processos, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, de procuradores entrando com ação contra os produtores rurais, com multas milionárias, porque romperam o campo nativo", afirmou Heinze sobre interpretações mais rigorosas da Procuradoria sobre a legislação.>
O procurador-geral deu razão a Heinze, um dos principais aliados de Bolsonaro no Senado. "Mas Vossa Excelência tem muita razão quando se queixa que muitos colegas dão interpretações que refogem ao autor da lei", disse Aras.>
"Eu tenho me debatido muito no âmbito dos meus colegas que tratam da matéria indígena para que todos possam ler o capítulo dedicado aos indígenas como está aqui na Constituição, mas sei que há uma natural tendência ideológica de alguns de escreverem a sua própria Constituição", afirmou.>
E prosseguiu: "É para isso que existem os órgãos correcionais, é para isso que existem os tribunais para retificar as condutas ilegais. É para isso que existem homens como Vossa Excelência, que conhecem a matéria com profundidade, para denunciar os eventuais excessos e desvios".>
Ao defender sua recondução por mais dois anos na PGR, Aras se comprometeu "a fortalecer o Ministério Público no caminho delineado pela lei maior, harmonizando unidade e independência funcional" de seus integrantes.>
Na visão de procuradores que atuam na Justiça Federal nos estados, essas declarações emitem sinais contrários e demonstram a falta de respaldo institucional por parte do chefe da PGR.>
Historicamente, procuradores e procuradores regionais da República que atuam na primeira e na segunda instância da Justiça Federal são o foco de maior oposição interna à cúpula do MPF.>
Entre os subprocuradores-gerais da República, topo da carreira do qual Aras também faz parte, a relação sempre foi de maior proximidade. No entanto, o atual chefe do MPF conseguiu um feito: despertar um antagonismo mais forte entre seus pares próximos.>
Nas semanas que antecederam a sabatina, em meio às declarações golpistas de Bolsonaro, ficou bem evidenciado um número crescente de subprocuradores em oposição a ele.>
Um grupo em torno de 30 subprocuradores-gerais da República tem cobrado publicamente ações de Aras sobre os ataques que o presidente vem deferindo contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e as suspeitas que lança, sem provas, sobre a confiabilidade do sistema eleitoral.>
No mês passado, cinco integrantes do Conselho Superior do MPF já haviam pedido a Aras que investigue Bolsonaro pelo crime de abuso de poder. O Conselho Superior é a instância máxima de decisões administrativas no âmbito do MPF. Tem dez integrantes e é presidido pelo PGR.>
Em recente nota pública, 29 subprocuradores-gerais escreveram que "incumbe prioritariamente ao Ministério Público a incondicional defesa do regime democrático, com efetivo protagonismo, seja mediante apuração e acusação penal, seja por manifestações que lhe são reclamadas pelo Poder Judiciário".>
O grupo afirmou ainda que "na defesa do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, de seus integrantes e de suas decisões deve agir enfaticamente o Procurador-Geral da República".>
Como o jornal Folha de S.Paulo mostrou, a postura de Aras despertou o debate nos bastidores do Supremo, do MPF e do Congresso sobre maneiras de esvaziar os superpoderes do PGR.>
A discussão gira em torno do fato de o ocupante do cargo ser a única autoridade que pode tomar decisões individuais que não são passíveis de recurso.>
Ao contrário do que ocorre na base do Ministério Público, não há previsão legal expressa sobre a revisão de manifestações do procurador-geral quando ele opina, por exemplo, pelo arquivamento de uma denúncia contra alguma autoridade com prerrogativa de foro no STF.>
Nas instâncias inferiores, os pareceres de procuradores são submetidos à homologação das câmaras de coordenação e revisão compostas por subprocuradores-gerais.>
Uma questão surge com a recondução de Aras: se, uma vez livre do poder da caneta de Bolsonaro de reconduzi-lo ao cargo, ele mudará de postura. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera as pesquisas eleitorais para 2022 neste momento, e Aras foi próximo dos petistas em um passado não tão distante.>
Na Procuradoria, a avaliação é que Aras não o fará, por enquanto. Ele ainda sonha em ser ministro do STF e torce pela reeleição de Bolsonaro. O chefe do Executivo, inclusive, já falou da possibilidade de indicar o procurador-geral para uma vaga na corte.>
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