Bolsonaro e Lula chefiam extremos antagônicos no espectro político brasileiro – um à esquerda e o outro à direita –, mas têm muitos pontos em comum. O maior deles é a atração que sentem pelos regimes autoritários. Bolsonaro demonstrou isso durante todo o seu governo, onde não se cansou de fabricar crises contra os outros poderes, em especial o Judiciário, e tentou desacreditar o sistema de votação para melar as eleições se fosse – como de fato foi – derrotado. Lula, por sua vez, nem procura disfarçar sua admiração pelos regimes totalitários da Venezuela, Nicarágua e Cuba.
Em outras palavras, Bolsonaro sonha – como o seu ídolo Donald Trump nos Estados Unidos – em governar o Brasil com plenos poderes sem ter um Legislativo, um Judiciário e uma imprensa que o atrapalhem em seus planos. Afinal de contas, “supremo é o povo” como seus seguidores fazem questão de demonstrar o desprezo que têm ao Judiciário. Não é sem razão que a artilharia digital bolsonarista fuzila qualquer parlamentar, ministro ou jornalista que ouse fazer uma crítica qualquer ao governo do seu líder.
Lula, por sua vez, continua cometendo equívocos colossais nas suas declarações sobre política externa, em especial com relação à Venezuela de Maduro. No último dia 29, em entrevista, chegou a dizer que o conceito de democracia é relativo, ao contestar que a Venezuela vive sob uma ditadura: “O conceito de democracia é relativo para você e para mim”, disse ao jornalista após dizer que “a Venezuela tem mais eleições que o Brasil”, preferindo ignorar a qualidade dessas eleições. Como contestou o jornalista William Waack, “o conceito de democracia, no entendimento clássico, não é relativo” pois pressupõe “a existência do Estado de direito – ou seja, onde todos são iguais perante a lei”, o que, ninguém desconhece, não é o caso da Venezuela.
Lula talvez não soubesse, mas ao dizer que o conceito de democracia é relativo repetiu Ernesto Geisel, um dos presidentes do regime militar de 1964, que disse a jornalistas franceses, em 1977, que “todas as coisas do mundo, exceto Deus, são relativas” ao tentar justificar que o regime autoritário brasileiro praticava uma democracia mesmo não sendo ela “a mesma que se pratica nos EUA e na França ou na Grã-Bretanha”. Geisel, na época, completou: “O Brasil vive um sistema democrático dentro da sua relatividade”. Quem diria que Lula, ao fazer aflorar a sua veia autoritária, fosse um dia repetir conceitos abraçados pela “ditadura militar” tão criticada por ele e seus seguidores.
Ninguém desconhece que só existe democracia onde há direito de expressão, liberdade de pensamento, poderes separados e independentes, imprensa sem censura, liberdade de ir e vir, coisas muito diferentes das que ocorrem na Venezuela em que o governo prende e persegue os políticos que são contrários ao regime, muda as regras do jogo no Judiciário e no Legislativo para se perpetuar no poder, sufoca a imprensa e persegue jornalistas.
A defesa da Venezuela, várias vezes repetida por Lula, é tanta que, no final de maio, ele disse a Maduro que a Venezuela era vítima de uma “narrativa de antidemocracia e autoritarismo, tendo aconselhado a Maduro a construir “a sua própria narrativa”. E mais: chegou a classificar de “abominável” o reconhecimento de boa parte da comunidade internacional, inclusive o Brasil, do líder opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela ocorrido em 2019.
Relativizar o conceito de democracia é escancarar o pensamento autoritário. Como escreveu o jornalista Merval Pereira, “todo ditador acha que a democracia não é um valor em si, que tem que se adaptar às circunstâncias do momento, do país, das dificuldades que pode encontrar; (...) quem diz que relatividade é essa ou aquela é quem está no poder”.
Se Bolsonaro sonhava com um golpe de estado que lhe daria poderes para governar o país sem ser incomodado por ministros do STF e parlamentares da oposição, Lula parece viver um sonho semelhante. Cada um tem a sua turma, mas seus objetivos parecem ser cada vez mais iguais. Infelizmente para quem acredita que a democracia pode ter os seus defeitos – e ela os tem – mas é o melhor regime já concebido pela humanidade desde a Grécia Antiga, muito tempo antes de Cristo.