Quem melhor define o perfil de Gérson Camata é seu parente, amigo e colaborador político – foi secretário de planejamento durante o seu governo, de 1983 a 1986 – Orlando Caliman: ele era um “homem da paz, da conciliação, do diálogo”. Dois momentos da sua trajetória política ilustram bem essas características da sua personalidade.
O primeiro deles se deu na convenção do PMDB que escolheu o candidato do partido que concorreria às primeiras eleições diretas para o governo do Estado após 16 anos em que essas eleições haviam se tornado indiretas. O governo militar, em 1966, estabeleceu que os governadores dos Estados seriam eleitos pelas Assembleias Legislativas. Não é preciso dizer que essas escolhas ocorriam, é claro, após prévia indicação do governo federal.
Com o crescimento da oposição nas eleições de 1974 e 1978, o governo militar decidiu fortalecer a sua base de apoio no Congresso criando a figura do senador biônico (um terceiro senador indicado pelo governo), ampliando a quantidade de deputados federais dos Estados menos populosos, instituindo o voto vinculado (o eleitor teria que votar em candidatos do mesmo partido em todos os cargos em disputa sob pena de ter o seu voto anulado) e extinguindo os antigos partidos (Arena e MDB). Só com essas salvaguardas o governo decidiu restabelecer as eleições diretas para governador.
Foi nesse período que Camata, então deputado federal eleito pela Arena, decidiu se filiar ao PMDB que nada mais era do que o antigo MDB com o “P” de “Partido”, exigência da legislação para evitar que as novas legendas mantivessem o nome anterior. Cristão novo na oposição, Camata disputou a indicação na convenção do partido com um emedebista histórico, Max Mauro, para concorrer ao governo. Candidato improvável, Camata venceu a convenção por quatro votos de diferença. E, nas eleições, mesmo com o torniquete do voto vinculado, Camata recebeu 67% dos votos, graças ao “voto camarão” em que os eleitores, para não terem o voto anulado, escolhiam candidatos a deputado do PDS e deixavam a cabeça da cédula (o voto para governador) em branco.
Outro momento em que Camata exerceu a característica agregadora foi por ocasião da sua posse como governador em 1983. Tendo chamado o então general-presidente Figueiredo de “mentiroso” em um comício em Afonso Cláudio, foi processado com base na Lei de Segurança Nacional. Ao procurar Figueiredo, Camata foi recebido na audiência com o som de um gravador que reproduzia o seu discurso no comício. Não se fez de rogado: pediu desculpas e saiu do Palácio amigo do presidente.