Talvez tenha sido 78, 81 ou 102. Os números oficiais revelam: 80 tiros. Se há exatidão no número redondo não consta nos boletins de ocorrência, será sempre um número a mais. A estatística da tragédia é fria, distante, nada a retira do prumo matemático. Entre mortos e feridos na guerra diária, sobram ódios e preconceitos espalhados em forma de palavra, pancada ou bala.
E foram 80 balas disparadas contra um carro, por engano, pela patrulha do Exército, que ocupa as ruas do Rio desde a intervenção decretada pelo Temer em 2018. No carro, o músico Evaldo Rosa com a família, que incluía o filho de sete anos. A criança assistiu à cena de terror e pôs os olhos inocentes sobre o cemitério maldito em que se transformou o Rio de Janeiro.
A Cidade Maravilhosa perde o glamour do nome para bandidos de muitos naipes e graus, milicianos, governantes corruptos e ineptos. A morte do inocente é mais uma, a indignação é seletiva, nenhuma novidade, diriam os defensores da bala perdida e achada dentro do homem sem passagem pela polícia. São esses, os praticantes de desumanidades como já escrevi aqui, que desfiam a pauta oculta (imagine se eles vão entregar a cota do seu racismo com todas as letras) de que pobres e pretos têm de ser tratados como bandidos.
Por serem gente de bem, defendem negros desde que ele seja meu empregado doméstico e durma em casa, no quartinho dos fundos com vista pra escuridão do mundo. Pode até almoçar na nossa mesa, mas espere a família raspar os pratos da benevolência e depois ore por nós pra demonstrar gratidão à nossa bondade.
O porta-voz disparou em nome do presidente meia dúzia de reticências, o governador se esquivou das perguntas, o ministro foi lacônico. Melhor se ausentar de mais uma pauta-bomba, até porque amanhã mais inocentes receberão o chumbo grosso. A crônica da tragédia se anunciou e é só mais uma lápide sobre a cova dos inocentes.
Evaldo foi confundido com bandidos, eis a justificativa oficial. Nas rodas de samba em que tocava, restou um surdo solitário entoando o réquiem de despedida ao companheiro. O samba agoniza junto com o sambista morto.