Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Jace Theodoro

80 tiros e um inocente morto: a indignação relativizada

Entre mortos e feridos na guerra diária, sobram ódios e preconceitos espalhados em palavras, pancada ou bala

Publicado em 11 de Abril de 2019 às 20:16

Públicado em 

11 abr 2019 às 20:16
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro Jace Theodoro
Exército dá 80 tiros em carro e mata músico no Rio Crédito: Amarildo

Talvez tenha sido 78, 81 ou 102. Os números oficiais revelam: 80 tiros. Se há exatidão no número redondo não consta nos boletins de ocorrência, será sempre um número a mais. A estatística da tragédia é fria, distante, nada a retira do prumo matemático. Entre mortos e feridos na guerra diária, sobram ódios e preconceitos espalhados em forma de palavra, pancada ou bala.

E foram 80 balas disparadas contra um carro, por engano, pela patrulha do Exército, que ocupa as ruas do Rio desde a intervenção decretada pelo Temer em 2018. No carro, o músico Evaldo Rosa com a família, que incluía o filho de sete anos. A criança assistiu à cena de terror e pôs os olhos inocentes sobre o cemitério maldito em que se transformou o Rio de Janeiro.

A Cidade Maravilhosa perde o glamour do nome para bandidos de muitos naipes e graus, milicianos, governantes corruptos e ineptos. A morte do inocente é mais uma, a indignação é seletiva, nenhuma novidade, diriam os defensores da bala perdida e achada dentro do homem sem passagem pela polícia. São esses, os praticantes de desumanidades como já escrevi aqui, que desfiam a pauta oculta (imagine se eles vão entregar a cota do seu racismo com todas as letras) de que pobres e pretos têm de ser tratados como bandidos.

Por serem gente de bem, defendem negros desde que ele seja meu empregado doméstico e durma em casa, no quartinho dos fundos com vista pra escuridão do mundo. Pode até almoçar na nossa mesa, mas espere a família raspar os pratos da benevolência e depois ore por nós pra demonstrar gratidão à nossa bondade.

O porta-voz disparou em nome do presidente meia dúzia de reticências, o governador se esquivou das perguntas, o ministro foi lacônico. Melhor se ausentar de mais uma pauta-bomba, até porque amanhã mais inocentes receberão o chumbo grosso. A crônica da tragédia se anunciou e é só mais uma lápide sobre a cova dos inocentes.

Evaldo foi confundido com bandidos, eis a justificativa oficial. Nas rodas de samba em que tocava, restou um surdo solitário entoando o réquiem de despedida ao companheiro. O samba agoniza junto com o sambista morto.

Jace Theodoro

Jace Theodoro Jace Theodoro

{{ndFunctionFirstNotNull(post.original_author.attributes_map.descricao_de_colunista.value,post.original_author.biography)}}

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Brasil diz ter convocado diplomata argentina para cobrar explicações sobre viagem de Flávio Bolsonaro
Macário Júdice Neto está preso desde dezembro
Macário Júdice é solto com uso de tornozeleira após quase um ano de prisão
Compra on-line; Black Friday; e-commerce; compra virtual; comércio eletrônico
O consumidor mudou mais nos últimos cinco anos do que nas duas décadas anteriores

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.