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Mundo

O medo como estratégia política: o estilo Trump de governar

Um pequeno menino, ao lado do pai Elon Musk, talvez tenha tido a visão e a coragem de dizer ao rei que ele está nu

Públicado em 

18 fev 2025 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O medo sempre representou estratégia de dominação poderosa e eficaz. Crianças, mulheres e os mais vulneráveis sempre tiveram que conviver com esse tipo de emoção, aprendendo mecanismos, os mais diversos, seja para dominá-la, seja para, de alguma forma, enfrentá-la.
Como sentimento de autoproteção e preservação física, social, econômica ou psíquica, ele serviu, ao longo da história humana na Terra, como importante mecanismo de sobrevivência, manejado pelo homem para se manter vivo ou incluído no sistema.
Das mais singelas formas as quais a espécie humana buscava se proteger dos predadores, com vistas a garantir sua vida e de sua família, às mais sofisticadas formas utilizadas na atualidade, o homem foi se especializando em técnicas para o domínio desse sentimento que, ao mesmo tempo que lhe serve como proteção, o coloca em um lugar de imobilidade capaz de inviabilizar sua própria autodefesa e proteção.
O medo paralisa a ação, imobiliza, silencia, faz o homem mudar a direção de seus projetos, se colocando, muitas vezes, como forma de sobrevivência, ao lado daqueles que o querem dominar.
O medo é aprendido e apreendido em nossas vivências cotidianas. De um modo geral os bebês e as crianças não se assustam diante dos perigos a que são expostos. Não conseguem ter a noção exata dos riscos a que estão submetidos. Precisam da proteção e da guarda que são exercidas pelos pais. Aos poucos vão aprendendo acerca da importância de ter alguém que ocupe o lugar de protetor. Com a maturidade entendem que são, eles mesmos, os guardiões de suas vidas e vão desenvolvendo estratégias de autodefesa e de domínio do medo.
Diante da ameaça concreta de ataque o homem pode reagir, por exemplo, mobilizando-se para a luta ou para a fuga. O problema está em desenvolver a capacidade de avaliar o tamanho da ameaça e a dimensão do medo diante do perigo para tomar a melhor decisão: fugir ou lutar.
Trump, desde que voltou ao comando da nação mais poderosa do mundo, adotou como estratégia política o manuseio do medo, da agressividade, da rapidez com que manipula técnicas distópicas de gestão, jogando com o absurdo dos disparates políticos, linguísticos, fenomênicos e espetaculosos, para produzir medo, silêncio, inquietação, desassossego, não apenas político, mas também pessoal e institucional.
O mundo está paralisado diante do espetáculo circense que tem Trump e Musk como principais atores. Todos os demais são figurantes de um elenco composto por indivíduos sem qualquer capacidade individual de produzir políticas públicas de interesse social, comprometidas com a verdade e com a integridade.
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump
Donald Trump Crédito: Reprodução | The White House
Não é o nacionalismo ao qual estivemos acostumados até então, ideologia política vinculada à proteção dos ideais, valores, cultura e riquezas de uma nação. Proteção do território com suas linhas demarcatórias de fronteiras. Proteção da língua e das tradições.
É uma distopia sem precedentes, que tem por objetivo desconstruir a noção de Estado com sua Constituição, pacto social construído de forma democrática e, portanto, sustentada em valores e normas compartilhadas.
E a desconstrução da noção de Democracia e de tudo que ela nos suscita no sentido de luta por igualdade, fraternidade, tolerância, direitos e garantias de direitos.
Desde a campanha eleitoral, Trump utilizou o medo como estratégia política. O medo do estrangeiro que contamina o sangue dos americanos e que induz a uma ideia de pureza de uma “raça” especial, que seriam os americanos puros, brancos, altos e de olhos azuis. O mesmo ideal de raça pura ariana que nos legou a trágica e vergonhosa história do extermínio de milhares de judeus.
O medo do estrangeiro pobre que empobrece a nação, tirando o emprego e produzindo gastos sociais que seriam dos americanos. O medo do estrangeiro, taxado de bandido, criminoso que produz insegurança e coloca em risco a vida e as riquezas dos americanos.
O medo que se materializa na deportação violadora de direitos. O medo que separa famílias, expropria bens, destrói a dignidade, que humilha, envergonha e mata a esperança de forma despudorada e acintosa.
O medo como política que se instala na Casa Branca com a assinatura de centenas de decretos perversos e que envergonham a democracia, o cristianismo e a ciência, valores até então cultivados pelo povo americano, mesmo que de forma carregada, muitas vezes de maneira mascarada por uma hipocrisia conveniente, mas, de alguma forma, condizente com os valores civilizatórios conquistados em nossa trajetória pós-iluminismo.
Não há mais qualquer preocupação em garantir uma imagem que seja compatível com valores virtuosos, preconizados pelos preceitos mais elementares da dignidade humana e do respeito ao próximo. O medo é a estratégia da política interna e externa do governo Trump.
Seja na saída da OMS, seja no abandono ao Acordo de Paris, não há preocupação como a saúde e a vida das pessoas e do planeta. “Nós nos bastamos” e “O Estado sou eu” evidenciam o discurso e as atitudes do presidente americano. Não o Estado americano que lhe está, este sim, sob a batuta, mas o mundo como um todo que também considera seu quintal e que pode tomar na medida de seus interesses.
O medo paralisa. O medo das tarifas, o medo das retaliações políticas, das invasões. O medo da barbárie, da falta de limites na crueldade e na loucura. O medo do racismo, do machismo, do ódio como política que se alastra pelo mundo.
Trump não está louco, apesar de sua aparente estupidez. Ele sabe muito bem o que quer e a estratégia muito bem arquitetada por seus articulistas políticos e de comunicação.
O mundo está com medo de Trump, e muitas nações, pessoas e líderes políticos vão se curvar a ele. Mas um pequeno menino, ao lado do pai Elon Musk, talvez tenha tido a visão e a coragem de dizer ao rei que ele está nu. “Você não é o presidente, você precisa ir embora. Eu quero que você cale a sua boca”, disse o filho de Musk, com apenas 4 anos, a Trump.
O pequeno, mal-educado e mal-criado menino sabe, de fato, quem é que manda e comanda a nação. Elon Musk é o presidente e sua big tech controla a todos nós, inclusive Trump.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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