Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Eleições 2022

Novo Congresso Nacional: o conservadorismo radical ganha espaço

O que vemos hoje no Brasil é o medo se instalando como política de convencimento para o alcance de propósitos inconfessáveis e antidemocráticos, que poderão se acirrar e radicalizar considerando a necessidade, vulnerabilidade e fragilidade dos eleitores

Publicado em 04 de Outubro de 2022 às 00:10

Públicado em 

04 out 2022 às 00:10
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O conservadorismo radical, de matriz fascista, tomou conta do país e se alastrou por todos os cantos e recantos de nossa nação que se sonhava útero profícuo da democracia.
Para muitos, os resultados das eleições ocorridas neste domingo (2) no Brasil se manifestam como um retrocesso a minar nossas certezas e a colocar em risco um sistema no qual se acredita como sendo o garantidor de nossa mais estratégica medida de manutenção e exercício das liberdades individuais, qual seja, a liberdade de consciência e de autodeterminação na escolha de nossos representantes no governo.
Escolher nossos candidatos a cada pleito, tentando definir, sem qualquer interferência externa, o projeto de nação e de governo ao qual nos filiamos é o maior desafio da democracia na atualidade.
Cooptados que somos pelas diversas “instituições totais” nas quais estamos inseridos e pelas quais transitamos no cotidiano, quais sejam, igreja, escola, família, entre outras, é quase impossível falar em decisão e escolha autônoma.
O surgimento e a ascensão das redes sociais e das diferentes plataformas digitais com sua capilaridade e facilidade para a propagação de fake news e discursos sem qualquer compromisso com a coerência e com a verdade tornaram esse processo ainda mais difícil e nossa liberdade de consciência e autonomia da vontade comprometidas de forma radical.
Nesse sentido, toda eleição, por mais que a consideremos uma festa da democracia, traz em si mesma o gosto amargo de uma vitória ou derrota, comprometidas pelas estratégias políticas adotadas de lado a lado para ocultar verdades e descortinar inverdades construídas com o objetivo de convencer eleitores a votarem nesse ou naquele candidato.
No processo eleitoral que acabamos de vivenciar, independentemente dos resultados terem nos agradado ou não, pudemos experienciar a democracia representativa se ressignificando a partir da nova modelagem eleitoral, que negativa ou positiva é a que temos para hoje.
Nesse sentido, o problema desse momento e a ressaca que alguns estão vivenciando com o adiamento da decisão para a Presidência da República para o segundo turno, que provoca sentimentos contraditórios, de alegria para uns e tristeza para outros, não deve ser propriamente o fato de termos que ir para o segundo turno das eleições. Isso é natural do ponto de vista da democracia. Faz parte do jogo político e temos que estar preparados, considerando que o povo se manifesta como quer e como pode, claro, nesses tempos tão difíceis que estamos vivenciando.
O que deveria sim ser o foco das preocupações neste momento, não apenas da esquerda, mas de todos aqueles que, conservadores ou não, se colocam de forma ética e coerente diante do futuro, é o fato da nova configuração do parlamento se apresentar com um ethos altamente fascista, antidemocrático, violador de regras e acrítico.
O tensionamento político e as disputas por projetos de configuração de Estado muito diferentes são processos naturais na democracia e não devem ser temidos nem combatidos.
A alternância de poder, as disputas políticas acirradas, as tentativas de convencimento dos indecisos fazem parte do jogo democrático que precisa ser preservado.
O que vemos hoje no Brasil, entretanto, é o medo se instalando como política de convencimento para o alcance de propósitos inconfessáveis, escusos, antidemocráticos, autoritários, que poderão se acirrar e radicalizar considerando a necessidade, vulnerabilidade e fragilidade, cada vez maiores, dos eleitores.
Seja o medo do inferno e do desagrado a Deus, plantados em um exercício retórico utilizado por religiosos inescrupulosos de todas as matizes, seja o medo da demissão por patrões que continuam a constranger seus empregados, seja o medo da violência praticada por grupos armados, milicianos em algumas regiões do país, o certo é que ascendem no Brasil, e no parlamento, de forma mais preocupante, grupos ultrarradicais.
Esses grupos, armados ou não, que alimentam o ódio, que promovem a violência, que constrangem e que se autointitulam defensores da moral e da integridade, mas que vivem a partir de uma lógica na qual a solidariedade social, a igualdade e o respeito à diversidade não existem, estão se ampliando no país e ocupando o parlamento.
Em breve, os incautos, entre eles muitas mulheres, negros, trabalhadores honestos e sérios, que embarcaram nesse delírio coletivo de defesa de candidatos que se autointitulam defensores da família, da propriedade e da pátria, em nome de um deus violento e perseguidor, verão as consequências de suas escolhas acríticas.
Eles sofrerão na pele a dor de uma terra arrasada, da violência sem controle do Estado e de perseguições a seus filhos e famílias que se arvorarem a pensar diferentes daqueles que ajudaram a eleger, instituindo um novo formato de ditadura, redesenhada agora e modelada a partir do parlamento.
O Brasil é um pais conservador, de tradição judaico-cristã, mas não é um país violento, desprovido de generosidade e respeito. Isso foi alimentado em nós com objetivos muito claros. Em nome de Deus e da família, muitos viram seus vínculos familiares e religiosos sendo rompidos por disputas políticas alimentadoras do mal, da intolerância, da perseguição e da violência.
O fascismo fascina e transforma o conservadorismo moderado em conservadorismo radical destruidor da família, da pátria e da propriedade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
8 receitas deliciosas de ensopado para os dias frios
Levantamento analisou 4 cenários em que os nomes visando à disputa pelo comando do Executivo estadual
Hartung, Pazolini, Ricardo e Magno têm empate técnico na disputa pelo governo do ES, diz Quaest
Arrascaeta, jogador do Flamengo
Arrascaeta tem cirurgia bem-sucedida e põe placa e parafusos na clavícula

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados