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Escândalo

Assédio sexual na Caixa: mulheres rompem o incômodo pacto de silêncio

Enquanto explodem notícias sobre o caso dos assédios sexuais e morais cometidos pelo agora ex-presidente Pedro Guimarães, representantes do governo optam por um incomodo e revelador silêncio

Publicado em 05 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 jul 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Pedro Guimarães, presidente da Caixa
Pedro Guimarães, presidente da Caixa Crédito: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Porque os homens continuam assediando e as mulheres silenciando?
Enquanto explodem notícias sobre o caso dos assédios sexuais e morais cometidos pelo agora ex-presidente da Caixa Econômica Federal Pedro Guimarães, representantes do governo optam por um incomodo e revelador silêncio, que mais se mostra do que esconde a matriza autoritária, machista, violenta, assediadora e misógina do atual governo.
Liderados por um presidente sem os qualificadores morais e a empatia necessárias diante da incontestável verdade denunciada por tantas vítimas de uma cultura que sustenta a violência contra mulheres como algo natural e aceitável, o governo silencia.
O presidente da República, nem mesmo por exigência do cargo e com o objetivo de amenizar a rejeição entre as mulheres para sua reeleição, sente-se constrangido e impelido a fazê-lo.
Seria por demais hipócrita e, portanto, contrário à sua “moralidade” tóxica , tantas vezes vociferada contra as mulheres, manifestar solidariedade com a dor e a violência de cada uma delas. Não se dignou a fazê-lo, nem mesmo por meio de uma nota redigida por seus escribas oficiais.
As medidas tomadas até agora foram de caráter eminentemente burocrático, visando atender aos ditames e desdobramentos requeridos de uma denúncia formulada junto ao Ministério Público e de manifestações da imprensa que exigem providências por parte daqueles que tem por dever funcional fazê-lo .
Seus representantes, ocupantes de cargos vinculados diretamente ao presidente da República, seguidores cegos, deslumbrados com o “desempenho” de seu líder, evitam se manifestar oficialmente sobre algo que julgam adequado e justo.
Eles consideram as mulheres como seres inferiores, de menor valor, objetos que existem apenas para satisfazer seus desejos espúrios e suas “necessidades” sexuais carregadas de perversão.
Suas fragilidades morais e sua incompetência para manter relações afetivas, amorosas e sexuais saudáveis e lícitas, sem necessidade de utilizar-se de subterfúgios, ameaças de demissão e o poder de seus cargos, demonstram que masculinidade tóxica ainda é uma realidade presente e cristalizada na cultura das instituições, públicas ou privadas.
O pacto de silêncio, a vergonha, a solidão, a dor e o medo de serem demitidas, exoneradas, expostas e desqualificadas em razão da cultura que mantem o patriarcado são sustentadores da continuidade das práticas violadoras da dignidade, da honra e da saúde das mulheres.
A conivência, a cultura do jeitinho, do "deixa disso", do “você não tem provas”, do “você tem razão mas vai ficar marcada para sempre, melhor deixar para lá”, dos silêncios dos superiores e dos colegas homens e mulheres que a tudo assistem sem se manifestar com solidariedade e empatia nutrem e mantêm as violações que causam profundas cicatrizes nas mulheres marcando-as de forma perene, adoecendo e comprometendo sua saúde física e mental.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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