No dia 30 de setembro de 1989 caía o primeiro tijolo do Muro de Berlim, com a famosa frase dita da sacada da Embaixada da Alemanha em Praga pelo então ministro das Relações Exteriores da Alemanha Ocidental, Hans-Dietrich Genscher.
Havia alguns dias que cerca de 4.000 refugiados da Alemanha Oriental estavam acampados nos jardins da embaixada esperando uma manifestação oficial do governo alemão, quando Genscher aparece na sacada e diz: “Nós viemos informar que hoje a saída de vocês... ”. Daí em diante não se ouvia mais nada, só gritos e choros, era a libertação depois de 28 anos.
Olhando a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim vemos uma divisão simbólica entre Estados das antigas Alemanhas oriental e ocidental, ricos e pobres, extremistas e democratas, nacionais e estrangeiros. E é justamente nos novos Estados reunidos após a queda do muro onde se vê na atualidade a votação expressiva no partido de extrema direita alemão.
Perguntamo-nos, então, por que não se anteviu a ascensão da extrema direita ao Parlamento? Ou ainda: por que o programa do partido, que repete ideais nazistas, não é considerado repulsivo por seus eleitores?
Aqui no Brasil, desde a primeira eleição direta para presidência - coincidentemente há 30 anos - uma onda conservadora tomou conta do debate político culminando com a eleição de um discurso que defende a não aplicação de conquistas democráticas para certas minorias como moradores de comunidades periféricas, detentos, comunidade LGBTQI.
Não estamos tratando aqui dos motivos psicológicos dos eleitores, mas da tentativa que vários cientistas políticos fazem para entender como um conservadorismo que pretende fechar o círculo da cidadania política a um grupo homogêneo e reduzido de pessoas pode ter lugar na Alemanha reunificada pós-queda do muro.
Em outro canto do planeta, o documentário do cineasta norte-americano Michael Moore, "Fahrenheit 11/9", mostra retrospectivamente que a onda de políticas conservadoras vem há alguns anos ocorrendo sob os olhares da classe política tradicional por lá também. Ele mostra em seu documentário que poucos acreditavam – até o dia da eleição – que Donald Trump seria o próximo presidente eleito dos EUA. Havia-se invisibilizado do olhar público que muitos americanos já não eram mais tolerantes às políticas de integração de minorias, de defesa dos direitos fundamentais, de inclusão social que tinham lugar no país.
Em resumo: o que aconteceu nas últimas eleições na Alemanha, no Brasil e nos Estados Unidos vinham acontecendo nos últimos 30 anos como reação à pluralidade democrática e a integração de minorias.
Enfim, preocupa-nos os discursos políticos não por que sejam totalmente imprevisíveis, mas por que a repetição dos seus efeitos nos são conhecidos desde a Segunda Guerra Mundial.