“No Brasil, até o passado é imprevisível.” A frase, atribuída ao ex-ministro da Fazenda Pedro Malan (a origem de sua autoria, entretanto, vire e mexe é contestada), foi lembrada ontem e citada pelo presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Luiz Paulo Vellozo Lucas, durante a apresentação do desempenho do PIB do Espírito Santo do primeiro trimestre.
Dita há uns 20 anos, ela continua atual e se encaixa em várias situações. Luiz Paulo, por exemplo, a usou quando foi questionado sobre qual a perspectiva de crescimento para a economia capixaba em 2019. Conhecendo bem o país onde vive e carregando com si a experiência de uma figura pública, cravar qualquer número poderia ser uma armadilha para si próprio. Safo, como é, preferiu repetir a frase antológica e dizer que projetar qualquer dado é difícil em um momento como o que o Brasil atravessa.
Mas de forma bem-humorada e avaliando que no primeiro trimestre houve uma retração na economia local de 1,3%, brincou que se tivesse que fazer uma aposta, apostaria que o crescimento no Estado vai seguir o mesmo patamar que analistas projetam para o PIB nacional, de uma alta da ordem de 1%. “De um modo geral, nosso comportamento segue o do Brasil. Na ausência de qualquer fato relevante regional, como foi Mariana ou Brumadinho, minha aposta é de acompanharmos o país.”
Embora trate-se, por enquanto, apenas de um palpite, convenhamos que seguir o Brasil neste momento não é o melhor dos caminhos, mas de fato tudo indica que é para esta direção que estamos indo. Ir no fluxo do país não está sendo vantagem, especialmente considerando que a cada semana o Boletim Focus, do Banco Central, traz uma revisão para baixo do PIB. Em janeiro, o mercado projetava alta de 2,53%, na última segunda-feira (17), ela já estava em 0,93%. Foi a 16ª queda consecutiva.
O problema é que por aqui os rumos da produção de riqueza podem estar indo por uma linha ainda mais sinuosa. Não foi só neste trimestre que o Espírito Santo teve um resultado pior do que o do Brasil – que retraiu 0,2% em igual período. Este é o terceiro trimestre consecutivo que o desempenho do PIB capixaba é negativo, ou seja, já estamos no estágio de recessão, tecnicamente falando.
No terceiro trimestre de 2018 houve recuo de 1,4%, no quarto trimestre a queda foi de 0,3% e, agora, de -1,3%, todos comparando com o trimestre imediatamente anterior. Desde o final de 2012 e início de 2013, o Estado não registrava três números negativos seguidos para o PIB trimestral.
Mesmo assim, Luiz Paulo não considera o cenário da economia capixaba como recessivo. Para ele, o ambiente é de estagnação e tende a melhorar nos próximos meses, desde que não existam intercorrências externas.
Independentemente da denominação que seja usada, a constatação é de que economia do Espírito Santo está andando para trás. O sinal amarelo já foi aceso e é necessário ficar em estado de alerta, caso contrário, nem no 1% vamos chegar. Só para lembrar, em 2017 e 2018, enquanto o Brasil avançava na casa de 1%, nós avançamos o dobro: 2,7% e 2,3%, para ser mais precisa. Triste será se em 2019 esta lógica se inverter.
Vilã até quando?
Os perigos de a recessão se instalar de vez por aqui vêm principalmente da indústria. Foi justamente ela que neste primeiro trimestre foi a grande vilã, ao apresentar uma queda de 10,1%, com influência negativa principalmente dos segmentos de mineração, celulose e petróleo e gás.
Como em uma perspectiva de curto prazo, esses três segmentos não devem ter muitas oscilações positivas, o Estado tende a manter um mau desempenho. A menos que outros setores como o de comércio e serviços ganhem tração e contribuam para uma guinada da economia capixaba.
Luiz Paulo também avalia que a indústria não deve sair de vilã para mocinha ainda neste ano. Ele acredita que só em 2020 é que o Espírito Santo poderá voltar a colher frutos melhores deste segmento.
“Há uma expectativa pelo retorno da Samarco, a Vale está buscando contornar os problemas que teve em Minas (com o acidente de Brumadinho), a Petrobras tem o plano de vender campos onshore, o que vai aumentar a produção em terra, e o setor de celulose tende a avançar, com a fusão da Fibria com a Suzano mais consolidada. Mas, por enquanto, o que temos é um nível de produção abaixo do período do pré-crise”, reconheceu.
Voltando ao início deste texto, acrescento umas palavras à frase de Pedro Malan: No Brasil, até o passado é imprevisível. O presente está sendo sofrido e o futuro segue indefinido.
Reforço rochoso
Se por um lado o acidente em Brumadinho está afetando a economia local, por outro está abrindo algumas oportunidades de negócios. De acordo com Luiz Paulo Vellozo, a Vale vem adquirindo blocos de granito com menor valor de mercado entre as rochas ornamentais para reforçar barragens em Minas Gerais.
Assista ao vídeo: Economia capixaba acende sinal amarelo